© Todos os direitos reservados

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

MEMÓRIA DE UM TEMPO...



Gravado na pedra de uma fonte que não seca, o tempo observa...
E eu que por ali passei, não fui indiferente, nem à pedra, nem ao tempo, nem à fonte que outrora me ofereceu água generosamente...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

COMO FALAR SOBRE O FUTURO ÀS NOSSAS CRIANÇAS?



Como poderemos falar do Futuro às nossas crianças? Ou melhor, poderemos falar do Futuro às nossas crianças? Não? Sim? Talvez, se partirmos a palavra em três. Assim teremos Fu, que é o dono do restaurante Chinês, ali da esquina; o Tu (quem és tu?); e o Ró (que devemos pronunciar com acento) que é o nome da décima sétima letra do alfabeto grego, que corresponde ao nosso R, ou se quisermos ir pouco mais longe, Ró que representa, em física, a grandeza «resistividade».

Mas do que nos interessa falar é do senhor Fu, do Tu, e do Ró. Como é que três coisas tão diferentes podem ter ligação com o Futuro? Não têm. Então, qual o interesse de falar nisto? Não interessa nada, como diz aquela senhora que nós sabemos. Então porque estou para aqui com estas baldroquices?

Não estou. Parece que estou, mas não estou. É um truque que aprendi com os políticos. Eles parecem que estão... mas não estão. Parecem que fazem... mas não fazem... Ao contrário, desfazem... Parece que dizem «sim, meus queridos eleitores» mas o que querem mesmo dizer é «queriam... queriam...», parafraseando o grande Jô Soares, aquele que faz rir com graça, aquele que faz graça com inteligência, aquele que com inteligência faz humor, sem precisar de recorrer a ordinarices, como muitos que eu cá sei. Só não sei é como ainda há quem ria dessas ordinarices!

Acho que me desviei das minhas intenções primeiras. Mas quais eram as minhas intenções primeiras? Ah! Sim, dissertar sobre o senhor Fu, o Tu, e o grego Ró (entre nós Erre)! E se de repente não me apetecer dissertar? Não disserto. Esta também é uma atitude que aprendi com os políticos. Por exemplo, os políticos prometem tudo durante as campanhas eleitorais, e depois de eleitos... não lhes apetece cumprir as promessas, não cumprem.

Tão simples quanto isto. E quem os obriga? Ninguém tem essa coragem. Ai de quem tiver! Aí vai papel que não é assinado. Aí vai obra que empanca nas gavetas das secretárias dos gabinetes de quem pode, quer e manda. Aí vai perseguição por coisa nenhuma. É o tens coragem de obrigar um político a cumprir o prometido durante as campanhas eleitorais! O que pensam? Um político não é eleito (salvo raras excepções, mas estes não são políticos, são Homens, com H)... mas eu dizia que um político não é eleito para resolver os problemas de uma autarquia ou da nação! Não! Isso é o que diz o papel. E uma coisa é o que diz o papel e outra coisa é o que o político quer. E quem o impede? Nenhum poder é maior do que o Poder!

Bem, quanto ao senhor Fu, é boa pessoa. Tu, dependendo de quem és tu, também és boa pessoa. O erre, coitado! Errar é humano, dizem. Será? Podemos tentar abordar este assunto, numa outra ocasião. Mas... e então quanto ao Futuro? Querem saber? Nunca fui ao futuro. Não sei nada do Futuro.
Josefina Maller

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

SE ALGUÉM...


«Se alguém se sente incomodado com a tua presença, é porque conhece o teu brilho, sabe da tua força, inveja o teu carácter e teme que os outros vejam o quanto tu és melhor, quanto a tua alma é mais evoluída.
Não é a aparência, é a essência. Não é o dinheiro, é a educação. Não é a roupa, é a atitude!

A ignorância gera a inveja, que é uma confissão de inferioridade.» (Cristina Franco)

PASSEIO À BEIRA DE UM MAR SUSSURRANTE...


Por aqui deixei meus passos na areia molhada...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TARDE AMENA...



As chávenas de café continuam a roçar os pires, e o murmúrio das vozes começa a embutir-me os pensamentos. Irei até ao jardim, espairecer os sentidos...

...

O colorido dos canteiros enternece-me.

O aroma, que das pequeninas flores se desprendem, devolve-me a razão.

A tarde continua amena. No entanto, apesar do sol, apesar do jardim, apesar do aroma das flores, hoje, nada consegue fazer-me descer da nuvem onde me refugiei.

© Josefina Maller

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

AO DESPONTAR O DIA...



Ao despontar do dia, a melhor oração consiste em pedirmos a aventura de não perder
nenhum dos seus instantes. (John Ruskin)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

REFLECTINDO...


Não Sou mais belo do que tu...
Não sou mais forte do que tu...
Não sou mais silencioso do que tu...
Não sou mais majestoso do que tu...
Não sou mais necessário do que tu...
Então porquê sentir-me superior a ti?...
© Josefina Maller

VENHAM, POETAS!...

Venham, poetas!...
Venham escutar
o mar
sussurrante e
apaixonado
que canta uma canção
de amor.
Venham,
ouçam-no cantar,
é para vós que ele canta.
Venham, poetas!
e encantem-no também
com os vossos versos...
© Josefina Maller

domingo, 13 de novembro de 2011

E OS POETAS PARTIRAM...


A manhã veio
envolta em luz
clara e radiosa
luz...
Com ela vieram
os poetas
e trouxeram
as suas vozes  
os seus versos  
os seus sonhos  
as suas ilusões  
e as rosas
que as águas do mar
levaram...
 A eles juntei
o meu canto triste
palavras malditas
um sorriso desfeito
e aquela rosa amarela
tão melancólica
e bela
e  ali
junto ao mar
gritámos então
a nossa poesia...
...
A tarde veio
envolta em brumas
róseas e transparentes
brumas...
E os poetas partiram
deixando em mim
a saudade...

© Josefina Maller

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

NESTE NATAL OFEREÇA LIVROS...


NESTE NATAL OFEREÇA LIVROS, MAS SOMENTE A QUEM GOSTAR DE LER.
DEIXO AQUI A SUGESTÃO DO LIVRO QUE ESCREVI A PENSAR NOS LEITORES DO FUTURO:


«A HORA DO LOBO»...

Custa apenas 15 Euros. Envio-o via CTT.
Portes já incluídos. E autografado.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

ONDE O RIO É TRANQUILO...


Onde o rio é tranquilo, talvez se esconda a água mais profunda. (Dionísio Catão)
(Foto: Riacho de Oseira - Ourense)

domingo, 6 de novembro de 2011

A FELICIDADE DOS HOMENS...


Vigiar para que germinem as sementes ou desabrochem as flores, arfar no arado, ler, pensar, amar, orar; eis a felicidade dos homens.
(John Ruskin)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O QUE APRENDI COM O LOBO

O Lobo não ataca sem motivo, nem luta desnecessariamente...
O Lobo não sente necessidade de demonstrar a sua capacidade a cada momento...

sábado, 15 de outubro de 2011

MADRUGADAS...


Por vezes, a preguiça do Sol cobria a planície de brumas e silêncio. Mas Rajid, que despertava, todas as manhãs, com o lamento de um melro, o qual fazia ninho entre os ramos de uma bela acácia, partia para a sua habitual digressão, apesar da penumbra.

Uma brisa delicada embalava as flores e as ervas da planície, ainda meio adormecida, e Rajid trotava com cuidado, não fosse despertá-las.

Porém, quase sempre, aquele silêncio era bruscamente interrompido pelo alvoroço do bater de asas e do cantar de um bando de pássaros azuis que vinha saudar a manhã.

A eles juntava-se o burburinho das águas, a sinfonia da folhagem e o relincho terno de Rajid. O Sol fazia dissipar, então, as brumas que o envolviam e descobria-se, fulgurante, enchendo de uma luz radiosa a paisagem.

A Natureza despertava do seu sono nocturno e tudo à sua volta se transformava, como que por magia.

Assim eram as madrugadas de Rajid...


in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (por publicar)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

SOLIDÃO


Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo



Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CRÍTICA DO PEPE


CRÍTICA DO PEPE

Antes de mais, Josefina, Parabéns.
Acabei de ler "A Hora do Lobo", prometi-lhe uma crítica sincera, aqui está ela:
Há grandes livros que cabem numa frase da sua narrativa, o seu não cabe de todo numa frase, é um manancial de ideias e de ideais, de sentimentos, de imagens, de poesia, enfim, de vida.
Para mim qualquer livro é uma viagem, cedo dei a mão ao Oskar Kapriolo, palmilhei com ele os trilhos ora terríficos ora deslumbrantes dos seus "delírios", fui espectador atento dos seus discursos, aos quais não poupei aplausos, fui também testemunha dos seus magníficos encontros com o Lobo. Deu-me um gosto imenso participar na sua visita ao jardim zoológico e na sua viagem pelo deserto com o inseparável Eliasário.
A dicotomia Homo Parvus - Homo Sapiens é sublime.
Também eu sou um nefelibata, por causa disso e pela forma inteligente como explanou o percurso do Oskar, foi um prazer enorme viajar na companhia das suas palavras, obrigado Josefina.
Fico a aguardar expectante a continuação da viagem,

Um abraço,
José António Martins (Pepe da Néte)


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

METAMORFOSE...


Mergulho neste olhar profundo
e vagueio em abismos de luz,
de inteligência,
de sabedoria,
de sensibilidade,
e sigo a matilha
tal como um deles...
procurando na noite
o segredo da existência...

© Josefina Maller

NO PARAÍSO PERDIDO...

«No paraíso perdido, a mulher mordeu o fruto da árvore do conhecimento dez minutos antes do homem; desde então, mantém essa vantagem»

Jean-Baptiste Alphonse Karr

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DO HOMEM...


«No começo do Génesis está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro que o Génesis foi escrito por um homem, e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo.» 
 Milan Kundera

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

CRÍTICA À «HORA DO LOBO»


Bom dia, Josefina. Acabei, aqui na pacatez de Penacova, de ler a sua «Hora do Lobo». Pedia-me as minhas impressões.

Primeira impressão:
Gostei, a sua escrita é muito forte, empolgante, densa, com uma seleção de palavras riquíssima. As suas adjectivações, duplas, triplas, são surpreendentes e certeiras. Aparecem de repente comparações e metáforas muito interessantes. As suas descrições de ambientes, os jardins, os desertos, até os vazios são muito sugestivos, realistas e cativantes.

Segunda impressão:
O seu retrato do mundo é terrível, por vezes tristíssimo, por vezes muito cínico, sempre crítico. Um pouco maniqueista. O domínio do Homoparvus sobre a Humanidade é aterrador. Mas de certo modo estou de acordo.

Terceira impressão, a mais importante e difícil de transmitir:
Oskar Kapriolo, a sua fábula (eu diria Alegoria, talvez), a sua mundividência e o seu dilema perante o arbusto-do-lobo. Confesso que não compreendi muito bem a opção final dele. Mas depreendo que a escritora o fez de propósito para deixar a narrativa aberta e a decisão como que passar para a consciência do próprio leitor, não será?
Gostei muito do livro.

António Manuel Castanheira

***
António, agradeço a amabilidade que teve ao enviar-me as suas impressões, pois são sempre importantíssimas para a evolução de um autor.

«A Hora do Lobo» é um livro de intervenção social, um livro para agitar as consciências adormecidas, como tal, e devido ao caos em que se encontra o mundo, pretendi acentuar o lado negro, comum aos povos dominados pelo Homoparvus, e também pelo mesmo motivo, deixei o final da narrativa aberto à decisão dos leitores. Cada um terá a sua própria ideia.

Afinal, qual teria sido a decisão de Oskar? Será exactamente aquela que o leitor teria, se estivesse no lugar da personagem. É essa interactividade que proponho.

Obrigada, António.

A SAGA DAS PEQUENAS FLORES...


Todas as manhãs, ao fazer a minha caminhada, encontro-me com umas pequenas flores, que brotaram entre pedrinhas, junto a penedos que impedem as águas do mar de invadirem a terra.
Tão frágeis, aquelas florzinhas! Tão belas!

Cativou-me a singeleza delas.

Fotografei-as, para não se perderem de mim.
...

Hoje, ao passar no mesmo lugar,

já lá não estavam as flores singelas,
de um jardim que inventei  só para elas.

Arrancaram-nas, como se arranca uma erva daninha.
Mas não foi em vão a vida delas.

Eu amei-as.
Eu fotografei-as.

E vivem agora na minha recordação...

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PLANTA O TEU JARDIM...


O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso planta o teu jardim e decora a tua alma,
Ao invés de esperar que alguém te traga flores... 
William Shakespeare

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O QUE DISSE ALBERT...



A estupidez só pode ser humana... (não haverá com certeza outra). Não é uma particularidade de nenhuma outra espécie animal (Josefina Maller)

domingo, 14 de agosto de 2011

BELEZA IDEAL...


A beleza ideal está na simplicidade calma e serena (Johann Göethe)

EUGENIO MONTALE




Prémio Nobel da Literatura em 1975, Eugenio Montale (Itália, 1896-1981) escreveu, segundo António Cabrita, este que é um dos mais lúcidos e terríveis poemas do século XX, e que passo a transcrever:



Vejo um pássaro imóvel na goteira,

pode parecer um pombo mas é mais esguio

e tem um vago tufo na cabeça ou talvez seja o vento,

quem poderá sabê-lo, as janelas estão fechadas.

Se tu o vês, quando te acordam

os motores dos barcos, isto é tudo quanto

nos é dado saber sobre a felicidade.

Tem um preço demasiado alto, não é para nós e quem a tem

não sabe o que fazer com ela.

sábado, 13 de agosto de 2011

A VISÃO DO PARAÍSO...



O lugar é aquele
Que rasgou os véus da minha juventude...
O céu é o mesmo.

Azul.
Aquele azul de que sou feita.
O arvoredo acolhe-me,

Num terno e delicado abraço.
...

Sinto então o paraíso
Recolher-se no meu olhar.

Deixo-o ficar... assim...

 Amoroso,
Para toda a eternidade...

© Josefina Maller

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

NO VELHO JARDIM... A FLOR...

Os ventos encontraram-se

No lugar onde eu contemplava uma flor.

Um lugar antigo,

Cheio de pequenas histórias

Velhas como as pedras...
Os ventos uivaram então.

Porém a flor permaneceu indiferente.

E eu cantei uma melodia,

Para aplacar a fúria desses ventos,

Que vieram assim como foram...

E a flor,

Continuou

A enfeitar o velho jardim...

© Josefina Maller

sexta-feira, 15 de julho de 2011

DA INUTILIDADE DA GUERRA...


(...) as guerras são impostas ao mundo por vontade apenas dos poderosos. E nessas guerras, o soldado abre fogo contra um inimigo anónimo e sem rosto.

Por que haveria eu de combater e matar outros jovens, em nome de uma tal demência? Inimigos são os desgovernantes entre si, que se odeiam uns aos outros, pela disputa de territórios, de poderes e de riquezas. E é em nome desse ódio que exigem aos filhos da nação que lutem nos campos de guerra, e entreguem à morte as suas carnes jovens, a sua dignidade e a sua auréola de seres humanos.


Enquanto isso, eles, os mandantes, escondem-se, covardemente, nos seus bunkers. Na melhor das hipóteses, porque melhor é a morte do que viver estropiado, os filhos da nação morrem. Quanto aos instigadores dessas guerras, esses, saem vivos dos seus buracos, para cantarem vitórias ou chorarem derrotas. O que quase vai dar ao mesmo!

O que lhes importa é estarem vivos e ilesos. Depois, com o intuito de aplacarem a dor das mulheres a quem são devolvidos os filhos mortos ou estropiados, erguem memoriais hipócritas aos que tombam em nome dos ideais idiotas que estão por detrás de todas as guerras, e dirigem-lhes discursos patrióticos, vazios e inúteis.

Oskar Kapriolo in «A Hora do Lobo» © Josefina Maller

quarta-feira, 6 de julho de 2011

ALENTEJO...



















Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

Do Poema «Árvores do Alentejo» de Florbela Espanca

sexta-feira, 24 de junho de 2011

PARA REFLECTIR...



A vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil (Hipócrates)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

À HORA EM QUE OS PÁSSAROS ADORMECEM...



O Sol era o mesmo. O jardim era o mesmo. O roseiral era o mesmo. Farinelo continuava igual a si mesmo. Apenas Oskar já não era o mesmo, tal como aquela camélia branca, que sendo semelhante a todas as outras que já ali floresceram, era uma outra camélia. Oskar acabava de regressar de uma vivência que nem sequer tinha a certeza se fora real. Depositado num jarro de cristal, com água a cobrir-lhe a haste, tão viçoso como na primeira vez em que o viu na posse do Lobo Cinzento, o arbusto-do-lobo lá estava, em cima da mesa de pedra, situada numa das extremidades do jardim, junto da adega, que emanava um aroma de frutos secos: ameixas, pêssegos, uvas…

A presença desta outra rosa, no jardim de Matilde, era a prova de que algo, na verdade, acontecera. Mas o quê? Oskar precisava, urgentemente, de decifrar aquele enigma, de outro modo, enlouqueceria. Teria sido um sonho? Os sonhos são fantasias, reflexos do imaginário. Nos sonhos não se colhem flores verdadeiras. Não, não poderia ter sido um sonho. Na verdade, Oskar partira para algures, à hora em que os pássaros adormecem, numa certa tarde. E numa outra tarde, também à hora do entardecer, regressou desse mundo estranho, possivelmente imaginário, provavelmente real...

Excerto d’ «A Hora do Lobo» © Josefina Maller

(O arbusto-do-lobo, também conhecido por rosa-albardeira, desempenha um papel importante na saga de Oskar Kapriolo, cujo futuro depende do que ele fizer com esta belíssima flor).

POR ONDE ME LEVARÃO MEUS PASSOS?...




Por onde me levarão meus passos...?

Que caminho será este...?

Vejo o vazio no chão

E a dúvida instala-se:

Devo seguir ou ficar?...

Josefina Maller

ENCONTRO INESPERADO...



Era um lago de águas azuis, luminosas e tranquilas, entre montanhas, de neves eternas, um dos muitos que abundam no Tibete, tornando-o um lugar de peregrinação, mesmo para aqueles que em nada crêem.

O Sol mostrava-se, timidamente. Sentia-se o silêncio, naquele lugar, como o trinar misterioso de um pássaro. Pelas suas margens, pensativo, descalço, vagarosamente, caminhava um vulto, como se flutuasse. Dir-se-ia que fazia parte daquela paisagem, plácida e paradisíaca. De súbito, vergou-se sobre aquelas águas transparentes e contemplou o seu rosto, longamente.

Eu, que por ali também deambulava, um pouco perdida de mim e do mundo, aproximei-me. O vulto ergueu-se e fixou o seu olhar no meu. Os seus cabelos, escuros e longos, contrastavam com a túnica branca e larga que lhe chegava aos pés. Uma barba espessa moldava-lhe um rosto muito belo, de uma idade sem idade. Dir-se-ia que eterna. Os olhos, serenos e melífluos, de um castanho claro, profundos como um oceano, reflectiam a luz da manhã e o infinito...

 Excerto de «AS LÁGRIMAS DE DEUS» © Josefina Maller (por publicar)

«A HORA DO LOBO»



Hoje fui surpreendida na rua por uma Professora que leu «A Hora do Lobo» e veio dar-me um abraço, e dizer-me que gostou muito do livro, pela filosofia de vida que nele encontrou. E depois perguntou-me: o Oskar Kapriolo é a Josefina? Limitei-me a sorrir. Mas fiquei muito feliz por aquela leitora ter captado a mensagem do Lobo. Não, não sou filósofa. Mas o Lobo é.

terça-feira, 21 de junho de 2011

«SOLAR DAS ILUSÕES»


Nos meus tempos de estudante de Coimbra, residi num pequeno quarto, nas águas-furtadas de uma República que, ironicamente, tinha o nome de «Solar das Ilusões» (casa da foto). Nome escrito em letras pretas, numa tabuleta de madeira, pendurada na parede da sala que servia de refeitório a 14 jovens estudantes.

Na verdade, quantas ilusões ali germinaram! E quantas, mais tarde, a vida fez murchar!...

A pequena janela do meu quarto, nas traseiras, dava para o telhado do velho casarão cor de tijolo, de uma arquitectura que fazia lembrar um bolo de noiva de três andares.

Era nesse telhado que costumava sentar-me, à sombra dos ramos de uma frondosa árvore, que, da casa vizinha, se debruçava sobre a “minha” janela.

Era aí que estudava, lia ou fazia as minhas serenatas aos gatos dos telhados vizinhos e às luzes da cidade.

No Penedo da Saudade ou no Choupal, cantava para as flores, para as árvores, para as águas do Rio Mondego e para as amigas e amigos que costumavam seguir os meus passos.

As então ruínas do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, numa das margens do Rio, abrigavam-me, quando precisava de estar só comigo mesma, ou de ouvir o silêncio que vinha das velhas pedras, para me reencontrar.

Foram tempos autênticos. Espontâneos. Reais. Tempo de ilusões. Só minhas.

Josefina Maller

sábado, 18 de junho de 2011

AS PEDRAS NÃO SE COMOVEM...

Por momentos

Fingi ser uma lágrima...

Fantasiava

Comover

Os corações empedernidos

E tentar fazer do mundo

Um paraíso...

Quanta ilusão!

As pedras não se comovem...

E o mundo continua

A ser esse lugar

Fustigado por todas as maldições.

...

Sei agora que a lágrima

É apenas um fluido

Que brota

De um coração dolorido...

© Josefina Maller

SUBLIME NATUREZA...



NADA HÁ DE MAIS SUBLIME E BELO DO QUE A VERDADEIRA LIBERDADE DOS CAVALOS À SOLTA... FOI PARA ESTA LIBERDADE QUE ELES NASCERAM... É PARA ESTA LIBERDADE QUE ELES EXISTEM...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O SILÊNCIO...



           Em todo o Universo, nada existe de mais parecido com Deus, do que o Silêncio
                                                Mestre Eckhart - Frade dominicano

terça-feira, 7 de junho de 2011

CANTAREI...



Cantarei para ti esta noite...

Se a Lua vier...




Josefina Maller

A IMPOSSIBILIDADE DO SER...

A fuligem do tempo encerrou os seus olhos numa caverna.

Do lado de fora, as pedras espreitam. Nada dizem.

Os ramos das árvores dão o alerta.

Um mocho pia.
Mas a visão do paraíso já se afundou nas trevas.

Para sempre...
Josefina Maller
Origem da Foto: Internet

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O SONHO QUE NÃO CHEGOU A SER...



Era uma vez uma jovem que ao deixar Coimbra levou com ela um diploma e um sonho: descobrir ruínas do seu país, e dá-las a conhecer ao mundo. Mas levou também um amigo: o seu inseparável violão; e um instrumento: a sua voz (que viria a ser-lhe, aliás, muito útil).

O sonho desfez-se, logo à nascença, porque no nosso país, como sabes, as ruínas sempre existiram. Trata-se de um velho país, porém, mal governado por homens para quem as ruínas nada valem. Para quê desenterrá-las? Além disso, o dinheiro não chega para tudo. É preciso esbanjá-lo com o que está à superfície. Que interessa o passado? Que interessam as ruínas?

Logo que o meu sonho de ser arqueóloga se desfez com aquele «não é possível» que de Coimbra veio, para meu desespero, tive de pensar num modo de sobreviver. Comecei a cantar. Nas ruas, claro, em troca de algumas moedas, que iam caindo numa latinha de chá, muito florida, que eu havia um dia encontrado num caixote de lixo. Um modo de vida como outro qualquer.

 – Artista de rua! Ao que chegaste, minha amiga! Mas vá, continua.

 Voltara à grande cidade, onde já vivera antes.

Um dia... amanhecia. Um formigueiro humano de leiteiros, padeiros, lixeiros, mercadores, ardinas, gente da mais variada, movimentava-se pelas ruas, ainda meio adormecidas. O sol despontava por entre os altos prédios, que uma leve neblina fazia parecerem fantasmas.

 Era aquela a minha hora predilecta de passear. Noutras ocasiões, era à tardinha, quando o sol brinca às escondidas com o mar.

Eu caminhava descalça, envergando uma das minhas velhas túnicas floridas. Lembras-te?

– Como podia esquecer? Eras a única que as usavas.

Seguia sem rumo como uma sonâmbula, pelas ruas semi-desertas, levando comigo o meu violão. Até que cheguei a uma larga avenida. Que direcção tomaria? Talvez a do rio. Algures por ali devia ficar uma casa de fado que outrora pertencera a um amigo e onde eu costumava cantar as minhas baladas, quando vinha à cidade. Como era bom rever lugares já há muito deixados! O tempo passa, mudam-se as coisas, os lugares, as pessoas, mas as recordações permanecem imutáveis. A casa de fado lá estava, mas já não era a mesma. E que importava isso? Que importa a diferença das coisas quando elas não mais nos pertencem?...

 in «Cartas a Nany Blue» (por publicar)

(Foto: Josefina Maller no tempo em que o canto fazia parte da sua vida)


quinta-feira, 2 de junho de 2011

PARA REFLECTIR...


Obviamente, desde que somos seres humanos, eternamente existirão algumas espécies de conflitos, rivalidades ou mesmo divergências de opiniões. Entretanto, terminantemente, jamais deverá haver a necessidade de se nutrirem de ódio ou mesmo matarem-se uns aos outros.

Daisaku Ikeda

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O TER É DA CARCAÇA, É DO EFÉMERO...






Um animal dito humano e um animal não humano têm de comum as mesmas necessidades: comer, beber, dormir, acasalar.
As mesmas ameaças: fogo, água, ventos, terramotos, doenças. E exactamente os mesmos sofrimentos físicos, e a dor moral da perda de um ser querido, do abandono, da indiferença. Sim, um é falante. O outro não. E depois? Tal aparente superioridade nunca protegeu o corpo de um indivíduo, dito humano, abonado com o dom da palavra, de ser devorado por um verme, com a igual sofreguidão com que um verme devora o cadáver de um porco, de um rato do campo ou de um pé de couve.

Diante do inevitável, homem, porco, rato do campo e pé de couve perecem como todas as coisas que são perecíveis. Já dizia um outro Zaratustra do mundo que somos a acumulação do que fomos antes, e seremos a acumulação do que hoje somos mais o que já fomos, e assim sucessivamente, para, no final, nos transformarmos todos em matéria putrefacta.
Resta-nos o espírito. E o espírito, esse sim, tem de ser imortal, de outro modo, a vida não faria qualquer sentido. Daí ser lógico cultivar mais o ser do que o ter. O ser é do espírito, é da imortalidade... O ter é da carcaça, é do efémero…

Oskar Kapriolo in «A Hora do Lobo»