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segunda-feira, 26 de julho de 2010

CANTAR DE AMOR...



Suave é o voo da ave


Brando, o sussurro do mar...

Terno, o abraço do vento

Límpido, o teu olhar...



Ameno é o suspiro da Lua

Afável, o sorriso da flor...

Sedutora, a bruma do bosque

Eterno, o teu amor...

terça-feira, 20 de julho de 2010

«EM BUSCA DO AMANHECER QUANTA GENTE MORREU ENCOSTADA A UM MURO!…»

...
Entre essa pequena multidão, encontrava-se um menino mutilado, sem as suas duas pernas, sentado no chão seco e poeirento, à beira do rio, observando Oskar com uns olhos grandes, negros, profundos, e imensamente tristes.

Olhos de ver. De sentir. De indagar. Já sem brilho e sem vontade de implorar o que quer que fosse. Olhos, onde a tristeza, ela própria, se encontrava encurralada. Olhos que apenas observavam Oskar, fixamente.

Com ele encontrava-se um outro menino, só pele e osso, dono de uns olhos também enormes, negros e tristes, que igualmente fitavam, sem expressão, o jornalista. Mastigavam ambos umas folhas que, com um ar absorto, iam arrancando de um arbusto rasteiro, que revestia a margem do rio. Impressionado com estes olhares cravados no seu, como punhais, Oskar abriu caminho por entre a multidão e aproximou-se deles. Então, o menino mutilado sorriu, o sorriso dos inocentes, daqueles que nada têm a perder, porque nada mais têm do que o próprio destino, incerto mas deles. Oskar curvou-se e, segurando na mão daquele menino, perguntou-lhe:

– Diz-me, por que comes essas ervas cheias de pó?
E o menino respondeu:

– São ervas dormideiras. Como-as, porque fazem-me dormir. E eu gosto de dormir. Queria dormir… dormir… dormir… sempre… É bom dormir!

– Dormir será assim tão bom, que justifique comeres essas ervas sujas, poeirentas e, com certeza, de sabor amargo?...

– As ervas são azedas, sim, mas é bom dormir! Eu queria estar sempre a dormir, porque quando durmo, sonho. E nos meus sonhos, tenho as minhas duas pernas. Posso andar, posso correr, posso ir para todo o lado, procurar o que comer, subir às árvores, colher papaias, fugir das armas que me perseguem, esconder-me dos guerrilheiros. E até jogar à bola. Sou feliz, quando sonho. Sou inteiro nos meus sonhos. Quando estou acordado, tenho de me arrastar pelo chão, como um lagarto, e não é a mesma coisa... É?... Neste tempo do verbo ser – é? – interrogativo e monossilábico, pronunciado de um modo que condenava o mundo inteiro, o menino, visivelmente mutilado também na alma, deixou-nos perturbados, especialmente Oskar, que foi possuído por uma revolta imensa. E olhando-o bem no fundo daqueles olhos negros, onde a tristeza estava encurralada, disse-lhe:

— Ouve bem, meu rapaz, não posso devolver-te as tuas pernas. E tu não podes viver no teu sonho, a dormir, o resto dos teus dias. Haveremos, juntos, de encontrar uma solução para a tua vida – Oskar pensava numas próteses que, mais tarde, cumprindo a promessa, ofereceu ao menino – Entretanto, ouve bem: se alguém, algum dia, te chamar de burro, não te ofendas, que de burro nada tens, a não ser a dignidade, por isso, diz-lhes que vale mais a dignidade de um burro, do que a falta de carácter desses homens feitos bestas, que te arrancaram as pernas, e com elas a possibilidade de viveres fora dos teus sonhos…

Segurando, depois, na mão do menino-pele-e-osso, perguntou-lhe;

— E tu, por que comes tu estas ervas? Também por causa dos sonhos?

E o menino, mostrando já uma certa sonolência, respondeu:

— Não… Eu… não sonho muito… Mas enquanto durmo, não sinto fome… E nas poucas vezes em que sonho, tenho sempre também o que comer…

— Há sempre o que comer nos sonhos… Os sonhos. Sempre os sonhos…O último refúgio dos que perderam a esperança… – balbuciou Oskar, mais para ele próprio, do que para ser ouvido.

...

Excerto do Capítulo 4 do livro «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Primeiro conto da Trilogia das Horas

(Deambulações de um homem lúcido por um mundo mais desordem do que ordem, ou o delírio de um nefelibata e os seus discursos impróprios, seguidos de caos)



terça-feira, 13 de julho de 2010

CAEM AS SOMBRAS DO ALTO DOS MONTES…



A árvore escuta o vento que, enfunado numa vela feita de trapos, habita num velho veleiro ancorado na margem.


A árvore escuta e cala.
O vento, enfurecido, por uma qualquer razão desconhecida, uiva, ruge, assobia, agita-se e agita as águas límpidas da Lagoa.

Uma garça cor-de-rosa tenta equilibrar-se, com elegância, na margem onde a árvore escuta o vento, e o veleiro aguarda que as águas o libertem.

Apesar de todo este tumulto, uma estranha quietude envolve o lugar.

Escondidos entre a folhagem, que a árvore lança para o chão, uns olhos espreitam. Uns olhos grandes e negros, profundos e melancólicos, que olham a agitação do lugar, com assombro.

A Lagoa é o seu mundo. A sua vida. O seu refúgio. O seu lugar de ser e de estar. Porquê esta metamorfose? Pela primeira vez, o vento, enfunado nas velas rasgadas do veleiro, invade os seus domínios. Sem cerimónia. Sem pedir licença. Com que direito? Nada parece fazer sentido. Há tanto tempo que aquele lugar é só seu! Só seu. E agora terá de o repartir, assim, deste modo tão inesperado e turbulento?

Uma ave misteriosa cruza os céus, e o seu voo reflecte-se nas águas claras e agitadas da Lagoa, nelas flutuando como um vulto fantasmagórico.

Caem as sombras do alto dos montes (1) sobre as pedras silenciosas que habitam este lugar, desde sempre. Aqui, os sonhos são deslumbramentos eternos como o próprio tempo. A estranha ave lança um gorjeio desatinado. Dá voltas e mais voltas ao redor da Lagoa.

Elegantemente, a garça cor-de-rosa continua o seu passeio, na margem, indiferente ao rebuliço do vento. Algo se passa. Mas o quê? O quê?...

Os olhos espreitam. Ainda. A árvore escuta e continua a lançar a sua folhagem avermelhada para o chão. O silêncio, que até então ali habitava também, é rasgado pelo uivo do vento. As sombras agitam-se. De onde virão as sombras? O que as agitará? O medo? O medo é redondo e vem vindo num turbilhão ilusório. A árvore, que escuta, não fala mas sente. Está triste. Nota-se a sua tristeza na ramagem que se verga até ao chão, onde continuam a espreitar aqueles olhos grandes e negros, profundos e melancólicos.

Subitamente, o vento emudece. A ave misteriosa abandona a Lagoa. A garça cor-de-rosa estende as suas asas magníficas, e parte também...

É então que o Outono se mostra, esplendoroso.

E são os olhos do entardecer que o acolhem, com melancolia…



(1) Cadunt altis de montibus umbrae – Pôs-se o Sol; é noite; anoitece (locução latina).

in «OS DIAS DE JOSÉ – e Outras Narrativas» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

sexta-feira, 2 de julho de 2010