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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

QUE MUNDO REFLECTIRÃO ESTES OLHOS?...


 
Uns olhos que nos cativam

Uns olhos que nos esmagam a alma

Uns olhos que carregam o peso de um mundo perverso

Uns olhos de um ser acossado

Uns olhos que nos acusam da falta de humanidade

Uns olhos que imploram amor

Uns olhos que são adagas

Uns olhos que falam de angústia

Uns olhos que cegam outros olhos

Uns olhos que nos dizem de um sofrimento desumano

Uns olhos de infância perdida

Uns olhos sem esperança...

Que mundo reflectirão estes olhos?...
 
Josefina Maller

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A "MENINA NUA" - A HISTÓRIA DESCONHECIDA DA FAMOSA ESTÁTUA DO PORTO


 
A "Menina Nua"
Chamava-se Aurélia Magalhães Monteiro e era conhecida por Lela, Lelinha ou pela “Ceguinha do 9” - para a eternidade ficará sempre a ser a “Menina Nua” da Av. dos Aliados, estátua que toda a cidade conhece e aprecia.

Nasceu no dia 4 de Dezembro de 1910, na freguesia do Bonfim e, pouco tempo antes de falecer, dizia-me que “tinha sido uma das mulheres mais apreciadas e cobiçadas do seu tempo...”.


Vivia no rés-do-chão do Bloco 9 do Bairro da Pasteleira, numa casa simples e humilde com flores a enfeitarem a entrada e a sala de jantar.


Um dia convidou-me a entrar e contou-me um pouco da história da “Menina Nua”:


- «Tinha 21 anos quando fiz de modelo para o Henrique Moreira, o mestre que fez a estátua: Mais tarde colocaram-me na Avenida dos Aliados - que belos anos aqueles! Estive duas semanas a “posar” e ainda hoje recordo com alegria e saudade aqueles momentos de trabalho, pois posso morrer amanhã que todos ficarão a saber quem era a Lela... Além disso, nessa altura, dava-me bem com os artistas, era bonita e eles convidavam-me. Andava por toda a parte, ganhei uns “cobres” com o Henrique Moreira, mas hoje... Resta-me a consolação de estar ali, de costas voltadas para o Almeida Garrett e de frente para o D. Pedro IV.»
Perguntei-lhe nessa altura se não tinha havido problemas com a nudez da estátua - por exemplo, proibições, censuras.

Ela respondeu-me:


- «Bem, sabe que naquela época havia certos sectores que se opunham claramente e até ficaram escandalizados com a “Menina Nua”. Nós éramos muito tacanhos e veja bem que há 50 anos as ideias eram realmente diferentes. Havia o Salazar, a Pide e o povo era mais fechado, mais religioso. Felizmente o mestre Henrique Moreira conseguiu “levar a água ao seu moinho” e lá fiquei, de pedra e nua, assim como Deus me botou ao Mundo...»
Sorriu de imediato, mostrando ainda réstias de um rosto bonito e de uma boca fina, onde já rareavam os dentes, vítima do peso dos anos e das canseiras e desgraças da vida. Além disso, imagine uma “moçoila”, no tempo da “outra senhora”, a expor-se toda nua perante uns homens de tela e pincéis ou bocados de pedra. Bem... era quase como ser comunista ou mulher da vida.
Fez-se uma pausa para mandarmos umas “bocas” contra o sistema do antigamente. Prossegui, perguntando-lhe quando e onde tinha começado a ser modelo. Antes de me responder, fica um pouco pensativa, levanta-se e encaminha-se para o seu quarto, vasculha dentro do guarda-vestidos e traz-me um amontoado de papéis e fotografias.
- «Vá, veja lá tudo isto» - diz-me. (Anotei visualmente uma série de fotografias, pequenas referências, recordações e memórias da “Menina Nua”). «De qualquer modo, e se a memória não me falha, comecei com o mestre Teixeira Lopes, na figura-modelo da rainha D. Amélia. Esta estátua encontra-se atualmente no museu com o mesmo nome, em Vila Nova de Gaia. Nessa época tinha muita vergonha. Era uma “moçoila” com 18 anos, bem feita e bonita. A minha mãe tinha falecido e fiquei mais tarde com uma madrasta, de quem por acaso não gostava nada; por isso mudei-me para o Bonfim, para casa da minha santa avó. Que tempos... Nessa altura, iniciei-me como modelo nas Belas Artes do Porto e lentamente fui-me habituando, até que fiquei mais descarada...»
Levantou a cabeça e, numa reflexão interior, com risos de vaidade e inconformismo, continuou:
- «Ah, nesse tempo, punha a cabeça dos rapazes em fogo, era bonita e não havia ninguém que não me conhecesse como a “Menina Nua”. Depois passei alguns anos como modelo, andei pelo Norte, pelo Sul e até a Lourenço Marques (hoje Maputo) eu fui. Fiz de modelo para vários mestres, entre eles: Acácio Lino, Joaquim Lopes, Dórdio Gomes, Sousa Caldas, Augusto Gomes, Camarinha e os consagrados Henrique Moreira e Teixeira Lopes. Além da “Menina Nua”, estou no Buçaco, no Cinema Rivoli, em Lisboa e em Moçambique... E hoje? Como vê, aqui estou, desde os 43 anos cega, uma vida difícil de adaptação, um mundo escuro, negro. E mais negro se tornou aquando da morte do meu marido. Fiquei completamente só.
Hoje, passados alguns anos, tenho um casal a viver comigo, sempre me ajudam a pagar a renda e a fazer-me um pouco de companhia. Tenho umas ajudas do Centro de Dia da Terceira Idade, ligado ao Centro Social cá do bairro, onde vou almoçar e lanchar. Enfim, sempre ajuda a passar o tempo e a velhice. Mas o que eu mais desejava na vida, além de mais dinheiro para viver, era dos meus ricos olhos...» (Algumas lágrimas correram-lhe pelas faces, enquanto se preparava para ir almoçar ao Centro.)
Despedi-me dela, tentando consolá-la com frases de carinho e amizade, mas a vida é um cão que não conhece o dono… Ela despediu-se (nessa altura), com um bom dia, entrecortado com um sorriso morgaiato, misto de Ribeira, Bonfim e Pasteleira...


Aurélia Magalhães Monteiro, a Lela, a Lelinha ou a “Ceguinha do 9”, faleceu no dia 2 de Junho de 1992, com 82 anos de idade. No entanto, a “Menina Nua” continua viva, fixa e eterna, ali na Avenida dos Aliados, envolta nos nevoeiros citadinos, perpétua e ardente, nos dramas e vitórias deste povo.


Do livro "Pasteleira City", de Raul Simões Pinto – Edições Pé de Cabra – Fevereiro de 1994
(com ligeiras adaptações)

sábado, 27 de outubro de 2012

O ABISMO ATRAI O ABISMO…


 
Caminhava no escuro como um cego.

A rua era comprida. Demasiado estreita. Viscosa. Parecia até habitada por morcegos, que gritavam quando ouviam os seus passos, secos, a agredir as pedras, molhadas pelas brumas que por ali se enredavam. Não havia Lua. Não havia estrelas. Não havia sequer uma luz acesa. Todas as janelas das casas estavam fechadas. Pelas frinchas espreitava a escuridão.

Ela procurava a Voz. Uma velha, muito velha, dissera-lhe para seguir por aquela rua. Aí encontraria, certamente, essa Voz. Claro que não era uma voz qualquer. Mas porquê numa rua tão escura, tão estreita, tão viscosa, habitada por morcegos, que gritavam ao ouvirem os seus passos?

Continuou a caminhar como se flutuasse. Não via absolutamente nada. Não, ela não sentia medo. A sensação era outra. Era como se o seu próximo passo fosse lançá-la num abismo. Por isso, caminhava com cuidado. Continuava a ouvir os gritos dos morcegos, mas não os via. Talvez nem fossem morcegos. O que sabia ela dos seres noctívagos? Nada. Não sabia nada. Absolutamente nada.

E o que era ou de quem era a Voz que ela procurava? Também não sabia. Então o que fazia ali? Questionou-se. Na verdade, precisava de ouvir a Voz. Foi o que a velha, muito velha lhe aconselhara. E apenas naquela rua, comprida, estreita e viscosa, a encontraria.

De súbito, um cântico semelhante àquele que os pescadores dizem ser de sereias que vagueiam no mar, despertou-lhe os sentidos. Um cântico que nos atrai para um determinado lugar. Que nos impele. Que nos seduz. Que nos faz seguir um caminho e não outro. Seria essa a Voz que ela deveria ouvir? Uma Voz que habitava a escuridão?

Cada um dos seus passos mais a aproximava desse cântico. Só voz. Sem palavras. Como se fosse um grito bradado em forma de canto, para seduzir uma alma, perdida nas trevas, e mostrar-lhe um caminho. Algo que existe para embriagar a consciência. Percorreu mais alguns metros e viu-se diante de uma porta entreaberta, de onde saía uma luz ténue e tremente. Ao aproximar-se da porta, ouviu nitidamente aquele cântico.

Contudo, logo que colocou o pé na soleira dessa porta, fez-se um breve silêncio, e logo uma voz tonitruante soou lá de dentro, redizendo como um eco: o abismo atrai o abismo[1], o abismo atrai o abismo, o abismo atrai o abismo…

           

Só então ela se apercebeu de que deveria regressar, urgentemente, ao seu mundo iluminado…



[1] Abyssus, abyssum invocat – Asneira puxa asneira (Salmo de David).
 
in «OS DIAS DE JOSÉ... E OUTRAS NARRATIVAS» © Josefina Maller (aguarda publicação)
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O MEU NOME É MULHER...


 
O meu nome é MULHER!
No princípio eu era a Eva
Criada para a felicidade de Adão
Mais tarde fui Maria
Dando à luz aquele
Que traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi:
Não dá mais!
Quero a minha dignidade
Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou camioneira, taxista,
Piloto de avião, policial feminina,
Operária em construção...
Ao mundo peço licença
Para actuar onde quiser
Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
E meu nome é MULHER...
 
(Autor é Desconhecido)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

PLANTA O TEU JARDIM...


 
 
... O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso planta o teu jardim e decora a tua alma,
ao invés de esperar que alguém te traga flores...
William Shakespeare
 
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O QUE NÃO APRENDEMOS...


 
Aprendemos a voar como os pássaros,
a nadar como os peixes,
no entanto não aprendemos a simples arte de viver como irmãos...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A FORÇA DA ALMA...


 
Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força da sua alma, todo o universo conspira a seu favor.
Johann Goethe

terça-feira, 16 de outubro de 2012

SOBRE O AMOR...


video

O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê-la à beira de um precipício...

Sthendal


(Para ver e ouvir este belíssimo vídeo é necessário fazer stop na música de fundo)
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

HARMONIA


 
Aquilo a que chamamos felicidade consiste na harmonia e na serenidade, na consciência de uma finalidade, numa orientação positiva, convencida e decidida do espírito, ou seja na paz da alma.

Thomas Mann

domingo, 14 de outubro de 2012

ENTRE O LUAR E A FOLHAGEM...




Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


sábado, 13 de outubro de 2012

«O PRECONCEITO É UM ATRIBUTO DA IGNORÂNCIA»



Eu tenho um sonho. O sonho de ver os meus filhos julgados pela sua personalidade, e não pela cor da sua pele.
Martin Luther King

Autoria do título: Isabel A. Ferreira

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

AS QUATRO LEIS DA ESPIRITUALIDADE ENSINADAS NA ÍNDIA



 
 
 
Na Índia, são ensinadas  “quatro leis da espiritualidade”:

A primeira diz: "A pessoa que vem é a pessoa certa".


Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo connosco, têm algo para nos fazer aprender e evoluir em cada situação.

A segunda lei diz: "Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido".


Nada, nada absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum "se eu tivesse feito tal coisa..."


Ou "aconteceu que um outro ...". Não. O que aconteceu foi tudo o que deveria ter acontecido, e foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem nas nossas vidas são perfeitas.

A terceira diz: "Toda vez que iniciares algo é o momento certo".


Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo nas nossas vidas, é que as coisas acontecem.

E a quarta e última afirma: "Quando algo termina, termina".
Simplesmente assim.

Se algo acabou nas nossas vidas é para a nossa evolução. Por isso, é melhor sair, ir em frente e enriquecer-se com a experiência. Não é por acaso que estamos a ler este texto agora. Se ele veio à nossa vida hoje, é porque estamos preparados para entender que nenhum floco de neve cai no lugar errado!


“Saber não é tudo. É necessário fazer. E para bem fazer, homem algum dispensará a calma e a serenidade, imprescindíveis ao êxito, nem desdenhará a cooperação, que é a companheira dilecta do amor”.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

AUTO-RETRATO


 
Sou melhor do que as pessoas pensam...


Pior do que elas imaginam...


As críticas não me abalam...


Os elogios não me iludem...


Sou o que sou não o que falam,


Vivo o presente... Espero o futuro... E sinceramente...


Não me ralo muito com o que os outros pensam de MIM...

(Sofia Pires e Borges)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O ESPELHO DE GANDHI


 
Perguntaram numa ocasião a Mahatma Gandhi quais são os factores que destroem o ser humano, ele respondeu assim:

A Política sem Princípios

O Prazer sem Responsabilidade

A Riqueza sem Trabalho

A Sabedoria sem Carácter

Os Negócios sem Moral

A Ciência sem Humanidade

E a Oração sem Caridade.

A vida tem me ensinado que as pessoas são amáveis, se eu sou amável;

Que as pessoas estão tristes, se estou triste;

Que todos me querem bem, se eu quero bem a eles;


Que todos são maus, se eu os odeio;

Que há rostos sorridentes, se eu sorrio para eles;

Que há rostos amargurados, se estou amargurado;

Que o mundo é feliz, se eu sou feliz;

Que as pessoas tem nojo, se eu sinto nojo;

Que as pessoas são gratas, se eu sinto gratidão.

A vida é como um espelho: se sorrio, o espelho me devolve o sorriso.

A atitude que tomo na vida, é a mesma que a vida tomará ante mim.

Quem quiser ser amado, que ame.

A única razão porque és feliz é porque tu decides ser feliz

domingo, 7 de outubro de 2012

DEFICIÊNCIAS...


“Deficiente” é aquele que não consegue modificar a sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive.

“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui.

“Cego” é aquele que não vê o seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para os seus míseros problemas e pequenas dores.

“Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir os seus tostões no fim do mês.

“Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por detrás da máscara da hipocrisia.

“Paralítico” é quem não consegue andar na direcção daqueles que precisam da sua ajuda.

“Diabético” é quem não consegue ser doce.

“Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser “miserável”, pois:

“Miseráveis” são todos aqueles que não conseguem falar com Deus.

MÁRIO QUINTANA (escritor gaúcho -  30/07/1906 - 05/05/1994).   

sábado, 6 de outubro de 2012

VOA E CANTA ENQUANTO RESISTIREM AS TUAS ASAS...


 
Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento
desabam no abismo
que sabes tu do fim?
Se temes que o teu mistério seja uma noite,
enche-a de estrelas.
Conserva a ilusão de que o teu voo te leva
sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta, canta para conservar uma ilusão
de festa e vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste,
não és mais que um voo no tempo.
Rumo aos céus? O que importa a rota?
Voa e canta,
enquanto resistirem as tuas asas.

Menotti del Pichia

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

NO MEU ESTRANHO SONHO...




No meu estranho sonho
Havia rosas amarelas, cisnes negros,
Águas claras, estrelas luminosas,
Uma Lua Cheia,
Um Lobo Branco de olhar profundo,
Havia uma brisa delicada
Como o adejar de asas de borboletas...


No meu estranho sonho
Havia pássaros azuis
No cimo de ramos desfolhados...
Só então me apercebi
De que estava no Paraíso...

Josefina Maller

terça-feira, 24 de julho de 2012

A FLOR DE LÓTUS...


 
A Flor de Lótus nasce na água, flutua sobre a água, mas não fica molhada. Você também deve estar no mundo da mesma forma – nele, por ele, para ele, mas não dele.

Sai Baba

terça-feira, 22 de maio de 2012

O LOBO...


— Oskar Kapriolo… – Uma voz, que me pareceu familiar, interrompeu-me os pensamentos.
Era o Lobo. Só podia ser o Lobo que me entregara a flor escarlate, no deserto, quem pronunciava, assim, o meu nome. A voz do Lobo foi o que mais me impressionou. Uma voz quente, afável, cadenciada, grave e profunda, que agitava os tímpanos da alma, mais do que os do corpo. Ainda mal refeito da mudança da paisagem árida para aquele exuberante mundo verde, e tão lesto quanto a minha condição me permitia, segui na direcção daquela voz sedutora, que não era humana e, no entanto, tão humana! E vi-me, então, diante do Lobo.

in «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller

sexta-feira, 18 de maio de 2012

SER CÓSMICO...


Nós somos como um: terra, céu, todas as coisas vivas, os de duas pernas, os de quatro pernas, os alados, as árvores, as ervas"...
(Mito Sioux da Mulher Búfalo Branco)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

REPOUSANDO...


Abandonando o corpo e o espírito a um repouso absoluto, de tempos em tempos, ganhamos forças admiráveis." (Séneca)

terça-feira, 20 de março de 2012

ESTE MAR...




Este mar que vem até nós

como uma blasfémia

adentrando-se

com a sua branca língua de espuma

nestas praias abandonadas

que são os corpos

entre os rochedos

rompendo a sua fúria

contra a bruma e a sede.

Jesús Losada (poeta espanhol contemporâneo)

in  «Homem Nu Persignando-se em Azul»

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O DIA DO MEU PROTESTO



Hoje, decidi fazer deste dia o dia do meu protesto.

E nem me interessa saber se alguém, noutro lugar, decretou qualquer outra coisa.

Há dias mundiais para tudo, com o objectivo de chamar a atenção do mundo, sem no entanto haver quaisquer resultados práticos, uma vez que os homens são demasiado cegos, surdos, egoístas, ambiciosos e ignorantes para se aperceberem de que estão a enterrar-se vivos na cova que eles próprios vêm cavando para eles, lentamente, há longos anos.

Sei que o dia do meu protesto também não resultará, mas terá, pelo menos, uma única vantagem: deixar aqui bem claro que eu, embora fazendo parte desta humanidade podre, nela vivo sob constante protesto, não concordando em nada com o rumo que os homens estão a dar ao que tiveram à sua disposição para viverem como HOMENS, neste Planeta

E no entanto, vivem como criaturas rastejantes.

Que loucura!

Quando penso que de um dia para o outro o nosso mundo pode ficar desfeito em cinzas se os LOUCOS quiserem! Não me refiro ao mundo podre em que esses homens loucos o estão mergulhando, mas daquele outro mundo natural, verde, cristalino, azul, colorido, belo, grandioso, e único, aquele mundo que não faz parte de nenhum sonho de fadas boas, mas de uma realidade que os loucos, ofuscados pelos bolores do podre em que vivem, teimam em desprezar.

É bem verdade que os homens predadores são muito mais prejudiciais aos HOMENS do que aqueles animais não humanos, que eles exterminam, tendo-os como “nocivos”.

E não me venham falar em fundamentalismos. É que há crianças e jovens, que esses loucos parecem ignorar, que precisam de viver num mundo digno da condição humana.

Os homens predadores não têm o direito de destruir um Planeta que pertence a uma infinidade de seres superiores a eles.

Por isso, faço deste dia, o dia do meu protesto contra a loucura dos homens que vivem como criaturas rastejantes, nos subterrâneos mais obscuros e imundos do mundo.

Josefina Maller
(Ilustração: pintura de Salvador Dali)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

SILÊNCIOS...


Há silêncios mais eloquentes do que as palavras sussurradas...

Josefina Maller

... ENTRE OS QUE ABREM OS BRAÇOS...

As verdadeiras diferenças no mundo de hoje não são entre judeus e árabes; protestantes e católicos; muçulmanos, croatas e sérvios.
As verdadeiras diferenças encontram-se entre os que abraçam a paz e os que querem destruí-la;

entre os que olham para o futuro e os que se agarram ao passado;

entre os que abrem os braços e os que fecham os punhos.

Bill Clinton

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ONTEM COMO HOJE, TIRANIA OU DEMOCRACIA, O DILEMA...


FERNANDO CAMPOS é um dos mais extraordinários autores portugueses da actualidade. Um dos meus preferidos. A sua prosa é límpida e escorreita. Ímpar. Ler Fernando Campos é esquecer a realidade e entrar no mundo fabuloso das palavras e dos enredos.

Neste momento estou a ler «Pedra Branca», o seu mais recente romance histórico, cujo âmbito cronológico da acção vai dos finais do século VII à primeira metade do século VI a. C., e no qual a poetisa Safo de Lesbos é a personagem principal. Um livro que recomendo não só pela sua beleza de escrita, como pela riqueza do conteúdo histórico.

Entretanto, seguindo a minha leitura, na página 47, deparei-me com o discurso do rei de Mitilene, que provocou o exílio de Safo, a conspiradora.

E não sei porquê (talvez vocês possam dizer-me), encontrei neste discurso algo que me trouxe aos tempos de hoje. E pensei: o que mudou em todos estes séculos? Este discurso pode ser proferido por qualquer um dos nossos actuais governantes. Ou poderia dizê-lo Salazar.

E eis que me deixou um dilema, que gostaria de partilhar convosco.

«(...)

Um dia Pítaco convoca os cidadãos para a agora. (...) Ele avança três passos no patamar até à beira da escadaria, levanta a mão e fala:

– Cidadãos de Mitilene! A nossa liberdade está em perigo. Um grupo de conspiradores ousou urdir na sombra a morte do vosso rei e a perda da cidade. Vejo-me constrangido a expulsar de Lesbos todo esse bando de perigosos malfeitores. Alcei-me ditador para que não mais haja nesta terra ditadura. Não renegaremos os deuses, velaremos pela salvação da pátria e pela segurança de todos vós. É na tirania que se funda a verdadeira democracia. De que serve a soma de opiniões dos homens cultos, se, numa assembleia, as suas ideias divergem, tal como na taberna se entrechocam as dos ignorantes no calor do vinho e das paixões? Sim, dir-me-eis, é preciso educar o povo. É verdade. Mas, quando toda a gente possuir o dom da sabedoria, todos continuarão a opinar diversamente e democracia corre o risco de ser sinónimo de anarquia...

Só sereis felizes se fordes governados por um rei absoluto. A causa de todos os males está na democracia, no governo da maioria. Quando o poder está na mão de um tirano, ele sabe que tem de satisfazer a muitos. Se muitos governam, não pensam senão em satisfazer-se a si próprios e surge então a mais hipócrita das tiranias, a tirania rebuçada de liberdade. Para obviar a esse perigo, cumpre pôr ordem nos tribunais, nas assembleias do povo, no exército, nas ruas, disciplina nas escolas, estabelecer normas de convivência. Criarei uma guarda pessoal que vigilará pela minha e vossa integridade, que o mesmo é dizer pela integridade do estado. Serão homens especialmente treinados. Ninguém conhecerá os seus rostos nem os seus nomes. Estarão em todo o lado, secretos, invisíveis, atentos e zelosos. Serão os meus olhos e ouvidos. Ide em paz. Sois livres de nada conceber e atentar contra o vosso rei e a vossa pátria...»

in «Pedra Branca»,  Fernando Campos (Editora Objectiva)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ENVIA-ME O AMOR...


Envia-me um amor que se infiltre no centro do ser e, de lá, se espalhe pelos ramos da árvore de vida para dar nascimento aos frutos e às flores.
Envia-me o amor que tranquiliza o coração na plenitude da paz.

(Rabindranath Tagore)


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A CONSCIÊNCIA DO LOBO...

...
— Eu sei, Oskar Kapriolo – recomeçou o Lobo – Sei o que sentes. Ouves-me falar e entendes-me, mas não podes responder. – (O Lobo parecia adivinhar-me os pensamentos). – Eu sei o que isso é. Já experimentei essa impossibilidade. Eu e todos os outros animais, meus companheiros, que não foram dotados do dom da palavra. As palavras, Oskar Kapriolo, não te esqueças nunca, as palavras são mágicas, reflectem a superioridade de um homem, em relação a um lagarto. Porém, tal superioridade só será válida se fizer parceria com o saber benéfico, para que o homem possa resgatar o lagarto da lama que o sufoca, ou a mosca da prisão que uma janela fechada representa.

As palavras, Oskar Kapriolo, neste momento, permitem-me ser superior a ti e, ao mesmo tempo, sentir compaixão pelo teu desespero, pela impossibilidade de não poderes perguntar-me tudo o que te atormenta.

Contudo, quero que saibas que não usarei esta minha capacidade para te esmagar, como o homem esmagaria o lagarto preso na lama, ou a mosca diante de uma janela fechada. Porque eu sou o Lobo. Não o lobo. O lobo feroz. O lobo mau, das histórias que contam às crianças humanas. Não o lobo do aforismo de Plauto, homo homini lupus – o homem é o lobo do homem, em alusão à crueldade com que os homens se prejudicam mutuamente! Que ideia mais desacertada! Os animais que os homens consideram irracionais, na verdade não o são. Sabias? – (sim, eu sabia, e ele também sabia que eu sabia. Mas como dizer-lhe? Acenei com a cabeça.) – Apenas não lhes foi permitido a dádiva da palavra, por isso, nunca puderam defender os seus pontos de vista, os seus direitos, as suas angústias, como criaturas vivas, habitantes deste Planeta, que não pertence apenas aos homens, como tão bem sabes.

E no entanto, sempre ouvimos e sofremos, acomodados, as torturas, as calúnias, os absurdos, as crueldades, os impropérios a que os homens, na sua mais bisonha ignorância, nos sujeitam. Consideram-nos seres inferiores, animais que se deslocam sobre quatro patas. Eles não! Gabam-se de se deslocarem sobre duas pernas. Mas também as galinhas se deslocam sobre duas pernas e, nem por isso, são criaturas superiores! É verdade que não somos capazes de nos expressarmos com palavras, mas comunicamos através dos nossos olhos e de sons que dizem tudo: dizem da nossa alegria, mas também do nosso desespero. Dos nossos sentimentos. Dos nossos sofrimentos. Contudo, ninguém os entende como tal.

Porém, tu, Oskar Kapriolo, tu és um dentre aqueles Homens que intuem estas coisas, que sabem interpretar a nossa linguagem e que conhecem, igualmente, o sentido cósmico da vida. Sabes ler nos nossos olhos que, em rigor, sempre disseram tudo, porque nada há de mais eloquente do que os olhos de um animal, para dizer dos seus desejos, das suas alegrias, das suas frustrações, do seu sofrimento, da sua dor, sem precisar de palavras. E até as pedras, consideradas por tantos outros homens, coisas sem alma, tu veneras como seres que fazem parte do Universo, ainda que seres inanimados. Amas as pedras e as montanhas, como amas as flores e as árvores, como amas os pequenos lagartos verdes que se aquecem ao sol, à beira dos rios. Sabes respeitar todas as criaturas, porque intuis a génese da criação.

Afirmas que o homem é apenas uma entre milhares de outras criaturas. E dizes bem. Consideras que todos os seres vivos são seres animados, logo, com ânimo, que é o mesmo que alma. Tomás de Aquino dizia que a alma de um animal não participa num ser eterno, porque nos animais não encontramos qualquer aspiração à eternidade. O que sabia Tomás de Aquino do pensamento dos animais? Nada. Por isso, cometeu um grande erro ao dizer o que disse.

Tu falas da alma dos animais, da alma das plantas como da tua própria alma. Dizes que Deus criou o mundo para que o homem pudesse partilhá-lo, em pleno pé de igualdade, com as restantes criaturas. Eu sei. Por mais do que uma vez, tentaste transmitir aos homens essa tua descoberta: a sensibilidade que existe em todos os seres animados e o mistério inerente ao silêncio dos seres inanimados. Contudo, uns, simplesmente, ignoram-te, e outros temem aceitar as tuas certezas intuídas. Consideram-te um nefelibata, flutuando num mundo que inventaste só para ti. Por isso, és prezado por poucos, e tão odiado por tantos.

in «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller