segunda-feira, 17 de maio de 2010
MADRUGADAS...
Por vezes, a preguiça do Sol cobria a planície de brumas e silêncio. Porém, Rajid, que despertava todas as manhãs com o lamento de um melro, o qual fazia ninho entre os ramos de uma bela acácia, partia para a sua habitual digressão, apesar da penumbra.
Uma brisa delicada embalava as flores e as ervas da planície, ainda meio adormecida, e Rajid trotava com cuidado, não fosse despertá-las.
Porém, quase sempre, aquele silêncio era bruscamente interrompido pelo alvoroço do bater de asas e do cantar de um bando de pássaros azuis que vinha saudar a manhã.
A eles juntava-se o burburinho das águas, a sinfonia da folhagem e o relincho terno de Rajid. O Sol fazia dissipar então as brumas que o envolviam e descobria-se, radiante, enchendo de uma luz radiosa a paisagem.
A Natureza despertava do seu sono nocturno e tudo à sua volta se transformava, como que por magia.
Eram assim as madrugadas de Rajid, o cavalo selvagem.
in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)
terça-feira, 11 de maio de 2010
ERA ENTÃO O MUNDO UM LUGAR DE DESENCANTO…
Era então o Mundo um lugar de desencanto, macerado pela dor de uma agonia, lenta e irremediável. Devorado por séculos de uma ignorância e uma incúria inconcebíveis. Inaudível, nos seus lamentos mais lancinantes. Um lugar onde o cantar da cotovia soava a melodia fúnebre.
Era o tempo de todos os tempos. Infinito. Imutável. Inexorável...
Subitamente, os céus rasgaram-se num esgar de fúria.
As nuvens foram, num ápice, sugadas pela boca imensa de um tufão e, por todo o Planeta, soou um rugido medonho, saído de entranhas, longínquas e desconhecidas, como se alguém estivesse a assassinar o Universo, desferindo-lhe golpes de uma inacreditável crueldade, e o Universo, trespassado pela dor súbita, provocada por essa desordem, não pôde conter o seu grito. Os ventos uivaram com toda a raiva que os vinha sufocando desde os tempos em que a Mãe Natureza começou a sentir os primeiros sintomas de uma doença grave, que veio a demonstrar ser altamente contagiosa e que foi se agravando à medida em que algo a que se chamou progresso ia avançando. Os uivos do vento ecoaram, então, por todo o Universo, como um grito de libertação.
Era então o caos. O caos sublime.
Tudo aconteceu inesperadamente.
As carnes de todos os seres vivos começaram a cair como chuva fétida. Homens e mulheres, velhos e novos foram atacados pelo que se admite ter sido o mais surpreendente tédio do Universo. Fracos e fortes, bons e maus, todos os animais vertebrados e invertebrados, caminhantes e rastejantes sobre a Terra evolaram-se, então, impelidos por uma ventania endoidecida. Toda a vegetação murchou e as águas das fontes, dos rios, dos lagos e dos oceanos secaram, tal o poder flamífero do Sol que, saturado, cingiu o planeta com um deslumbrante manto de fogo. E esse fogo era tudo o que restava do caos.
Veio depois o vazio.
O nada, na sua mais absoluta significância. O nada, mas não as trevas. Era uma luz intensa que fulgurava. Tão ofuscante que causaria pasmo e aquele terror primordial do desconhecido, se alguém ficasse para contemplá-la.
Iniciara-se revolta dos elementos. Ferozes. Saturados de raivas acumuladas, há longos, longos séculos, pelos maus-tratos que lhes foram infligidos. Desprotegido, o Planeta ficou então inteiramente à mercê de um Sol insensível, único elemento dominante no caos em que o Universo se transformou, o qual envolveu a Terra num abraço funesto, ao lançar os seus raios ultravioletas, como flechas envenenadas, sobre todos os povos.
Todavia, pela Terra, deambulava o esqueleto de um homem que, misteriosamente, sobrevivera ao tédio do Universo. Um ser sonâmbulo. Amostra de um caos absoluto. Simulacro de sombra ou vivo-morto, sem condição para repousar, em paz, o corpo descarnado. Por isso, aguardava, expectante, o desfecho desta rebelião dos elementos, e um destino singular e inimaginável, que o aguardava, lá, num lugar secreto, onde a vida fluía como um milagre…
in «A HORA DO LOBO» © de Josefina Maller (a aguardar publicação)
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terça-feira, 4 de maio de 2010
A MORTE DO LOBO...
O Lobo, lindo, de pelagem cinzenta e olhar profundo, solitário e triste, cabeça baixa, caminha, cambaleando, pisando a folhagem, na minha direcção.
Os seus olhos tristes, feridos de morte, olham-me, com desespero.
Eu sei, ele sabe, a morte está perto.
De súbito, solta um longo e doloroso uivo, que soou em toda a floresta como uma despedida.
O Lobo estremeceu... Eu estremeci...
Conduzi-o até uma gruta, escondida entre abetos, e ali, no abrigo da folhagem, exalou o último suspiro, nos meus braços, que o abraçaram fortemente...
– Vai, Lobo, vai...
Leva contigo o meu coração despedaçado e as minhas lágrimas...
A tua vida foi uma constante luta pela sobrevivência, no mundo onde manda o homem. Que mal fizeste tu para que ele te assassinasse?
Mal nenhum, eu sei.
Tu partiste, Lobo. Para onde?...
Como posso saber?...
Só sei que nesta floresta, na nossa floresta, permanecerá a tua honestidade de Lobo e a nossa amizade, em cada madrugada que vier...
Para sempre, Lobo...
Para sempre...
(Origem da imagem: Internet)
domingo, 2 de maio de 2010
NEM SEMPRE OS LÍRIOS FLORESCEM...
Era uma vida como todas as vidas.
Ou não seria uma vida como todas as vidas?
Nem todas possuem a tranquilidade das árvores.
Não!
Era uma vida única. A serenidade habitava no seu semblante. Todos os seus gestos eram harmoniosos.
Caminhava como se flutuasse. A sua voz, afectuosa. O seu olhar, melífluo. E a sua sabedoria, infinita. Vivia numa cabana de madeira, construída no meio de uma pequena floresta, não muito afastada da povoação.
Ela procurava-o frequentemente. A tranquilidade daquela vida apaziguava os demónios que a atormentavam. Sempre foi recebida no pequeno jardim, que rodeava a cabana. Nunca ninguém ousou invadir a intimidade daquele lugar. Sentavam-se, cá fora, nuns bancos de pedra, e era debaixo da folhagem de um belo carvalho que ela sorvia as suas palavras sábias, com a avidez dos sequiosos. Quando chovia, ficavam debaixo do telheiro, sentados em cadeiras de verga, a olhar a chuva, num silêncio que tudo dizia.
Ninguém sabia o nome dele. Era conhecido simplesmente como o Velho Sábio da Floresta. Barbas e cabelos brancos e longos, ondulavam ao sabor do sopro do vento. Vestia longas túnicas, à moda dos velhos orientais. Numa das mãos trazia sempre uma pequena pedra, em forma de coração, de uma brancura transparente. Era a pedra da Sabedoria. Se a apertares com força, entre as tuas mãos, sentirás a sua energia benéfica. Dizia-lhe. E ela acreditava.
Um dia procurou-o, por se sentir perdida. Disse-lhe: Lanço à terra sementes que nunca florescem. Porquê? – Referia-se às iniciativas que tomava para mudar o rumo à sua vida.
– Na verdade, nem sempre os lírios florescem (1)... Vai, medita nestas palavras, e regressa apenas quando tiveres compreendido o significado delas… – Disse-lhe, então, o velho sábio.
Naquele dia, ela deixou-o, desassossegada. Nem sempre os lírios florescem… Que significado teriam aquelas palavras?
De regresso a casa, teve de atravessar um campo. Nesse campo, entre muitas outras pequenas flores, havia lírios silvestres. Contemplou-os longamente. Os lírios…Veio-lhe à lembrança o que disse Mateus: Olhai os lírios dos campos, não trabalham, nem fiam; e vede como crescem; nem mesmo Salomão, com toda a sua glória, se vestiu como um deles.
Fez-se então uma luz dentro dela.
Não sabia se havia compreendido o verdadeiro sentido das palavras do velho sábio, mas decidiu regressar à floresta, nesse mesmo dia, e disse-lhe: Velho, acabo de aprender com os lírios do campo que rodeia este lugar que nem sempre é possível cultivar um sonho…
O velho sábio apertou as mãos dela nas dele, e sorriu…
(1) Nec semper lilia florent – Nem sempre as coisas correm à nossa maneira (locução latina).
in «OS DIAS DE JOSÉ... e Outras Narrativas», © Josefina Maller (a aguardar publicação)
(Origem da imagem: Internet)
terça-feira, 27 de abril de 2010
ANTES DO MAR, AS ÁGUAS…
Um dia, ela desejou fazer uma viagem.
Disseram-lhe que seguir o caminho da Poesia era caminhar em direcção ao Paraíso. Durante vários dias, meditou sobre esse itinerário.
Pouco sabia desse trilho e desse Paraíso. Perguntou então onde podia encontrar o caminho da Poesia. Disseram-lhe que procurasse o bosque dos salgueiros debruçados sobre o rio, e seguisse um atalho juncado de folhas avermelhadas. Nele, encontraria gravado em cada árvore um pequeno poema. Devia segui-lo, ao longo da margem, em direcção à montanha. O Paraíso estaria onde os seus sentidos o vislumbrassem. Porém, quando se deparasse com ele, jamais poderia revelar o que os seus olhos vissem.
Pareceu-lhe aliciante esta promessa de idílio e de mistério.
Partiu então de madrugada, ainda o Sol deambulava pelo outro lado do mundo. Misteriosa, a bruma cingia-a delicadamente. Os seus passos rasgavam o silêncio daquela manhã. Seguia o seu instinto que dizia: Vem, vem por aqui… Ouvia o canto de um pássaro que parecia acompanhá-la, invisível, como um anjo.
Em breve estaria diante do bosque dos salgueiros debruçados sobre o rio. As águas iam tranquilas, e as árvores, rendidas ao mistério dessa mansidão. As folhas avermelhadas do Outono juncavam o caminho que ela devia seguir. Numa pedra, logo à entrada, liam-se estas palavras: Neste bosque venera-se Matsuo Bashô, e com ele a Poesia.
Matsuo Bashô. O poeta japonês.
…
Compreendia agora o que lhe disseram quanto ao caminhar em direcção ao Paraíso, seguindo o caminho da Poesia.
Na primeira árvore, o primeiro poema:
«Depressa se vai a Primavera
choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes»
Assim teve início esta viagem. Em cada árvore um poema de Bashô. Palavras simples, frases breves, conceitos profundos. Sim, na verdade, ela encontrava-se no Paraíso.
«Quietude:
as cigarras escutam
o canto das rochas»
Deixou-se então conduzir pelas palavras. Seguiu o curso do rio. Leu todos os poemas de Bashô, gravados nos salgueiros debruçados sobre as águas. O trilho terminava na montanha, junto à nascente do rio. Contudo, o que os seus olhos viram, jamais poderia ser revelado.
Como retribuiria ela a Bashô esta viagem pelo interior do Paraíso dele?
Decidiu então gravar na pedra, cravada na falda da montanha, um tributo a todos os poetas, ao jeito de Bashô:
Antes do mar, as águas (1)
antes das águas, o sopro
antes do sopro, o ser dos seres…
in «Os Dias de José... - E Outras Narrativas» © Josefina Maller (a aguardar publicação)
(1) Ante mare undae – A causa precede o efeito, o todo provém da reunião das partes (locução latina)
terça-feira, 20 de abril de 2010
SÚPLICA...
Eis-me prostrada sobre a terra,
ainda húmida do orvalho da noite.
Sinto-lhe o cheiro forte e doce,
este cheiro que me conduz
a um tempo que desconheço,
a lugares nunca visitados,
a experiências nunca vividas,
a memórias imemoráveis,
a um sino que toca na escuridão,
a pedras soltas,
ruínas,
heras cobrindo muros...
Não sei onde estou,
não sei o que sou,
não sei...
O que queres de mim, terra,
que me chamas com o teu odor, forte e doce...?
Por que me arrastas
para estas desconhecidas lonjuras? ...
Deixa-me voltar
para o meu universo
feito de silêncios e sons,
de luas e sóis,
e desta flor que
desabrocha todas as manhãs,
no meu olhar...
domingo, 18 de abril de 2010
O CISNE
(das lendas: Cisne. H. 13 v.)
O cisne dobrou o flexível pescoço para a água e viu-se reflectido.
Então, de repente, compreendeu a razão da sua fraqueza e daquele frio que lhe atazanava o corpo fazendo-o tremer como de Inverno: e sem qualquer dúvida soube que a sua hora havia soado e que precisava de se preparar para a morte.
As suas penas eram ainda brancas como no seu primeiro dia de vida. As estações e os anos tinham-se passado sobre ele sem lhe manchar as vestes imaculadas; podia pois desaparecer, concluir em beleza a sua existência.
Erguendo o belo colo, dirigiu-se lenta e solenemente para debaixo de um salgueiro, onde costumava repousar durante o calor. Era quase noite. O ocaso estava agora tingido de púrpura e a água do lago tinha o tom violeta.
E no grande silêncio que havia em tudo, o cisne começou a cantar.
Até aí, nunca encontrara acentos tão plenos de amor pela Natureza, pela beleza do céu, da água e da terra. O seu canto dulcíssimo espalhava-se no ar, velado de nostalgia, até que, pouco a pouco, se foi extinguindo conjuntamente com a derradeira luz do horizonte.
– É o cisne – disseram comovidos os peixes, os pássaros, todos os animais do prado e do bosque – é o cisne que morre.
in «Fábulas e Lendas – contadas e escritas por Leonardo da Vinci no seu tempo» - Edição da Editorial Futura/1974, com tradução de Virgílio Martinho
(Origem da imagem: Internet)
terça-feira, 13 de abril de 2010
QUANDO O MUNDO NÃO CHEGA PARA ACOLHER A MINHA ERRÂNCIA... NA FÉ DE UM MONGE ME ABRIGO...
O que mais me seduz
em ti
é o sorriso que sempre
encontro nos teus lábios
apesar de saber dos teus
medos
dos teus desencantos
e da solidão a que te
impões quando
as sombras caem
sobre a tua cela de monge
e no silêncio da noite
apagas o teu desejo
de liberdade
numa oração...
O que mais me fascina
em ti
é a alegria com que
vives a tua vida
enclausurada entre
as velhas pedras de
um mosteiro
que te dá abrigo e
onde encontras
a tranquilidade
com que embalas
a tua alma
e a quietude com que
adormeces
os teus sonhos...
O que mais me cativa
em ti
é essa arte que buscas
entre as coisas de Deus
e a devolves, depois,
aos mortais como
relíquias eternas
para serem admiradas
veneradas
através de formas divinas
anjos e arcanjos
santos e santas
flores de um jardim
imaginário
de um paraíso só teu...
O que mais me encanta
em ti
é a fé que me transmites
com o teu modo de ser
e de viver os mistérios de
Deus
de quem por vezes
me afasto
e me perco
para encontrá-lo de novo
em ti
no teu sorriso
na tua alegria
na tua arte
na tua imensa fé...
sexta-feira, 9 de abril de 2010
CÂNTICO FINAL...
Chegara, finalmente aquele 17 de Outubro. O ano era o de 2009. Fazia uma daquelas magníficas tardes de Outono, em que o Sol dourava a folhagem, amarelecida, dos choupos, no jardim.
O silêncio era o de águas que corriam ali perto.
Eleutéria acabara de morrer.
Ouvi estas palavras serenamente. Afinal, Eleutéria tinha 100 anos. Murchara como uma uva passa. A sua doença limitava-se a ser o cansaço da vida. Quando se perde a força da juventude, viver torna-se um fardo. Dizia Eleutéria, frequentemente.
E tudo aconteceu como previra.
Tantas vezes passara pelo 17 de Outubro! Esse dia, era o dia do seu pressentimento. Dizia. Comemorava-o, como o dia da morte que havia de vir, tal como celebrava o dia do seu aniversário, a 27 de Maio. Nascera em 1909.
Um século de uma vida vivida como se estivesse permanentemente em cima de um palco: representando. Sim, representando várias Eleutérias. Sempre se sentira no lugar errado, rodeada das pessoas erradas, e fazendo as coisas erradas. Qual das que representava no palco da vida seria a verdadeira? Nem ela própria sabia.
Nunca conseguira dominar o seu destino. Tentou ser escritora. As palavras eram o seu sonho maior. Mas não a deixaram. Outros valores menores sempre se levantaram diante da sua obra (quase toda de intervenção, numa época em que a literatura de água com açúcar estava em voga). Talvez a indiferença que os editores votavam ao seu talento, lhe tivesse corroído a alma, e ela deixara-se abater como um tordo.
Antes de se sentar na sua cadeira de baloiço, de onde não sairia mais, a não ser para ir deitar-se, com ajuda, queimou todos os seus papéis, todos os seus manuscritos, todas as suas recordações, fotografias, para que não ficasse rasto do que foi. E até ela foi cremada, e as cinzas lançadas sobre o oceano, para que nada restasse da sua existência na Terra.
De Eleutéria resta apenas a recordação de uma mulher que teve o sonho de ser escritora e um sistema editorial caduco não permitiu.
E eu, que a conheci e cheguei a ler alguns dos seus escritos, posso afirmar que o mundo perdeu quem poderia ter sido uma das maiores autoras do século.
Como eu compreendia o seu desassossego!...
...
Voai cinzas de Eleutéria! Acompanhai a essência que se foi. Juntai-vos algures num paraíso que houver longe, para que Eleutéria renasça!
(Origem da imagem: Internet)
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O BANHO ESQUIVO DA LUA...
A noite veio e o mundo adormeceu.
Então a Lua, despiu os seus véus de prata e mergulhou nas águas do rio, enquanto as sombras ocultavam a sua nudez, de luminoso mármore branco.
Os pirilampos apagaram os seus lumes, e todos os seres noctívagos recolheram-se nos ramos mais altos das árvores. Nas margens.
Os peixes refugiaram-se nas grutas rochosas, lá nas profundezas das águas do rio.
O silêncio era quase absoluto. Nenhum ser ousava feri-lo.
Ouviam-se apenas uns suspiros. Uns lânguidos suspiros.
Era a Lua que suspirava, do prazer intenso, que cada mergulho lhe proporcionava. Por vezes, deixava-se afundar, e seguia o curso das águas, que passavam vagarosas, sem urgência...
A Estrela do Pastor estava vigilante. Nada poderia perturbar o banho da Lua, que se prolongou até ao amanhecer.
Quando o Sol começou a despontar, a Estrela enviou um dos seus raios luminosos, anunciando à Lua o despertar do mundo.
Então a Lua vestiu os seus delicados véus de prata, e lançou-se num voo gracioso até aos confins do Universo, deixando pelo caminho pequenas gotas de água, que logo se transformaram em estrelas.
E, no rio, ficou um rasto luminoso, que tornou as águas mais límpidas e misteriosas.
A partir de então, quando a noite chega, ouvem-se ainda os suspiros de prazer da Lua, no seu banho esquivo, naquela noite em que o mundo adormeceu...
(Origem da foto da Lua: Internet)
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