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terça-feira, 3 de agosto de 2010

O MENINO...



Eu vi o menino nascer à beira do rio...


Eu vi o menino crescer nos becos da vida

Eu vi o menino ser abandonado na rua

Eu vi o menino sofrer ao ver a mãe caída no chão

Eu vi o menino nascer à beira do rio...

Eu vi o menino ser explorado

Eu vi o menino ser violado

Eu vi o menino esfomeado

Eu vi o menino a roubar pra comer

Eu vi o menino nascer à beira do rio...

Eu vi o menino na guerra

Eu vi o menino caído entre os escombros

Eu vi o menino ferido

Eu vi o menino a comer lixo

Eu vi o menino a beber água ao lado de um cão

Eu vi o menino nascer à beira do rio...

Eu vi o menino a definhar

Eu vi o menino a agonizar

Eu vi o menino a dirigir-se para o rio

Eu vi o menino morrer à beira do rio...

Eu vi o menino a ser devorado pelos abutres...


Eu vi...

O filme chamava-se “O Menino”...

O menino sem nome era o menino que eu vi nascer à beira do rio...

O menino que eu vi morrer à beira do mesmo rio...

Um menino que veio ao mundo, no nosso mundo...

Eu vi...

E agora que vi, sinto-me culpada: eu não estava lá...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

CANTAR DE AMOR...



Suave é o voo da ave


Brando, o sussurro do mar...

Terno, o abraço do vento

Límpido, o teu olhar...



Ameno é o suspiro da Lua

Afável, o sorriso da flor...

Sedutora, a bruma do bosque

Eterno, o teu amor...

terça-feira, 20 de julho de 2010

«EM BUSCA DO AMANHECER QUANTA GENTE MORREU ENCOSTADA A UM MURO!…»

...
Entre essa pequena multidão, encontrava-se um menino mutilado, sem as suas duas pernas, sentado no chão seco e poeirento, à beira do rio, observando Oskar com uns olhos grandes, negros, profundos, e imensamente tristes.

Olhos de ver. De sentir. De indagar. Já sem brilho e sem vontade de implorar o que quer que fosse. Olhos, onde a tristeza, ela própria, se encontrava encurralada. Olhos que apenas observavam Oskar, fixamente.

Com ele encontrava-se um outro menino, só pele e osso, dono de uns olhos também enormes, negros e tristes, que igualmente fitavam, sem expressão, o jornalista. Mastigavam ambos umas folhas que, com um ar absorto, iam arrancando de um arbusto rasteiro, que revestia a margem do rio. Impressionado com estes olhares cravados no seu, como punhais, Oskar abriu caminho por entre a multidão e aproximou-se deles. Então, o menino mutilado sorriu, o sorriso dos inocentes, daqueles que nada têm a perder, porque nada mais têm do que o próprio destino, incerto mas deles. Oskar curvou-se e, segurando na mão daquele menino, perguntou-lhe:

– Diz-me, por que comes essas ervas cheias de pó?
E o menino respondeu:

– São ervas dormideiras. Como-as, porque fazem-me dormir. E eu gosto de dormir. Queria dormir… dormir… dormir… sempre… É bom dormir!

– Dormir será assim tão bom, que justifique comeres essas ervas sujas, poeirentas e, com certeza, de sabor amargo?...

– As ervas são azedas, sim, mas é bom dormir! Eu queria estar sempre a dormir, porque quando durmo, sonho. E nos meus sonhos, tenho as minhas duas pernas. Posso andar, posso correr, posso ir para todo o lado, procurar o que comer, subir às árvores, colher papaias, fugir das armas que me perseguem, esconder-me dos guerrilheiros. E até jogar à bola. Sou feliz, quando sonho. Sou inteiro nos meus sonhos. Quando estou acordado, tenho de me arrastar pelo chão, como um lagarto, e não é a mesma coisa... É?... Neste tempo do verbo ser – é? – interrogativo e monossilábico, pronunciado de um modo que condenava o mundo inteiro, o menino, visivelmente mutilado também na alma, deixou-nos perturbados, especialmente Oskar, que foi possuído por uma revolta imensa. E olhando-o bem no fundo daqueles olhos negros, onde a tristeza estava encurralada, disse-lhe:

— Ouve bem, meu rapaz, não posso devolver-te as tuas pernas. E tu não podes viver no teu sonho, a dormir, o resto dos teus dias. Haveremos, juntos, de encontrar uma solução para a tua vida – Oskar pensava numas próteses que, mais tarde, cumprindo a promessa, ofereceu ao menino – Entretanto, ouve bem: se alguém, algum dia, te chamar de burro, não te ofendas, que de burro nada tens, a não ser a dignidade, por isso, diz-lhes que vale mais a dignidade de um burro, do que a falta de carácter desses homens feitos bestas, que te arrancaram as pernas, e com elas a possibilidade de viveres fora dos teus sonhos…

Segurando, depois, na mão do menino-pele-e-osso, perguntou-lhe;

— E tu, por que comes tu estas ervas? Também por causa dos sonhos?

E o menino, mostrando já uma certa sonolência, respondeu:

— Não… Eu… não sonho muito… Mas enquanto durmo, não sinto fome… E nas poucas vezes em que sonho, tenho sempre também o que comer…

— Há sempre o que comer nos sonhos… Os sonhos. Sempre os sonhos…O último refúgio dos que perderam a esperança… – balbuciou Oskar, mais para ele próprio, do que para ser ouvido.

...

Excerto do Capítulo 4 do livro «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Primeiro conto da Trilogia das Horas

(Deambulações de um homem lúcido por um mundo mais desordem do que ordem, ou o delírio de um nefelibata e os seus discursos impróprios, seguidos de caos)



terça-feira, 13 de julho de 2010

CAEM AS SOMBRAS DO ALTO DOS MONTES…



A árvore escuta o vento que, enfunado numa vela feita de trapos, habita num velho veleiro ancorado na margem.


A árvore escuta e cala.
O vento, enfurecido, por uma qualquer razão desconhecida, uiva, ruge, assobia, agita-se e agita as águas límpidas da Lagoa.

Uma garça cor-de-rosa tenta equilibrar-se, com elegância, na margem onde a árvore escuta o vento, e o veleiro aguarda que as águas o libertem.

Apesar de todo este tumulto, uma estranha quietude envolve o lugar.

Escondidos entre a folhagem, que a árvore lança para o chão, uns olhos espreitam. Uns olhos grandes e negros, profundos e melancólicos, que olham a agitação do lugar, com assombro.

A Lagoa é o seu mundo. A sua vida. O seu refúgio. O seu lugar de ser e de estar. Porquê esta metamorfose? Pela primeira vez, o vento, enfunado nas velas rasgadas do veleiro, invade os seus domínios. Sem cerimónia. Sem pedir licença. Com que direito? Nada parece fazer sentido. Há tanto tempo que aquele lugar é só seu! Só seu. E agora terá de o repartir, assim, deste modo tão inesperado e turbulento?

Uma ave misteriosa cruza os céus, e o seu voo reflecte-se nas águas claras e agitadas da Lagoa, nelas flutuando como um vulto fantasmagórico.

Caem as sombras do alto dos montes (1) sobre as pedras silenciosas que habitam este lugar, desde sempre. Aqui, os sonhos são deslumbramentos eternos como o próprio tempo. A estranha ave lança um gorjeio desatinado. Dá voltas e mais voltas ao redor da Lagoa.

Elegantemente, a garça cor-de-rosa continua o seu passeio, na margem, indiferente ao rebuliço do vento. Algo se passa. Mas o quê? O quê?...

Os olhos espreitam. Ainda. A árvore escuta e continua a lançar a sua folhagem avermelhada para o chão. O silêncio, que até então ali habitava também, é rasgado pelo uivo do vento. As sombras agitam-se. De onde virão as sombras? O que as agitará? O medo? O medo é redondo e vem vindo num turbilhão ilusório. A árvore, que escuta, não fala mas sente. Está triste. Nota-se a sua tristeza na ramagem que se verga até ao chão, onde continuam a espreitar aqueles olhos grandes e negros, profundos e melancólicos.

Subitamente, o vento emudece. A ave misteriosa abandona a Lagoa. A garça cor-de-rosa estende as suas asas magníficas, e parte também...

É então que o Outono se mostra, esplendoroso.

E são os olhos do entardecer que o acolhem, com melancolia…



(1) Cadunt altis de montibus umbrae – Pôs-se o Sol; é noite; anoitece (locução latina).

in «OS DIAS DE JOSÉ – e Outras Narrativas» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

LUTO PELA TERRA...



A terra secou.


Secaram os meus olhos...

Não tenho mais lágrimas

Para a irrigar...

As plantas murcharam

E eu emurcheci com elas...


Origem da imagem
http://fabianapaula.files.wordpress.com/2010/04/terra-seca.jpg


sábado, 26 de junho de 2010

A ORAÇÃO DO MACACO…



No primeiro dia, vieram uns e outros de todos os lados.

No segundo dia, vieram uns.
No terceiro dia, vieram outros.
No quarto dia, não veio ninguém.

No meio da praça vazia, tão vazia, que nem um cão se via, o Presidente, empoleirado no seu palanque dourado, não tinha a quem dirigir a palavra. Intrigou-se então o homem. Porquê, se no primeiro dia vieram uns e outros, de todos os lados, ouvir a conferência do cientista sobre o aquecimento global? Se bem que no segundo dia, sim, só vieram uns, assistir à dissertação do escritor sobre o Acordo Ortográfico; e, no terceiro, outros vieram para o sermão do padre acerca das bem-aventuranças. Mas no quarto dia, não vir ninguém ouvir o discurso do Presidente sobre o estado da governação? Ele que já era Presidente há tantos anos, e sabia das coisas! Era muito estranho. Ali havia gato! Um grande gato!

O Presidente ainda esperou algumas horas, sentado numa das cadeiras que havia no palanque. Talvez aparecesse alguém para o esclarecer daquele grande mistério. Nem um cão? Nem um pássaro? Ninguém para o ouvir? Estranho. Muito estranho.

O tempo passou, até que veio a noite. Entretanto, o Presidente adormeceu, sentado na cadeira. Parecia um falecido, à luz da Lua. O seu rosto estava branco. Os braços descaídos ao longo do repolhudo corpo. As pernas esticadas.

Foi assim que todos, vindos de todos os lados, o encontraram ao quinto dia. Um rumorejo percorria a praça, agora cheia de todos. Falavam por entre dentes. Perguntavam-se se o Presidente estaria morto. O que lhe teria acontecido? Ninguém se atrevia a falar alto. Ninguém se atrevia a aproximar-se. Ninguém se atrevia a coisa nenhuma. Limitavam-se a observar e a cochichar. Até que chegou Angélica, mais conhecida como a “casta Angélica”, que, muito ansiosa, foi abrindo caminho até ao palanque, por entre a multidão, estupefacta.

A “casta Angélica”, plantada nos seus sapatos altos, vermelhos, a condizer com um vestido florido, que deixava antever o que não era conveniente ver-se, subiu, com muita elegância, as escadinhas que conduziam ao palco, onde o Presidente continuava sentado na cadeira, como um falecido, e, delicadamente, tocou-lhe no ombro. O Presidente acordou estremunhado. Mais do que estremunhado, estremunhadíssimo, com uma expressão de terror desenhada no rosto, demasiado branco. Dir-se-ia estar diante de um fantasma.

Um e outro puseram-se então a dizer a oração do macaco (1), ou seja, a falar por entre dentes, para que ninguém ouvisse o que diziam. O Presidente, notava-se, estava apavorado. As palavras que trocavam, ninguém as ouvia, apesar do profundo silêncio que se fazia na praça. Contudo, podia deduzir-se o teor da conversa, pelas expressões comprometidas de ambos.

De súbito, a “casta Angélica” retirou-se do palanque com um sorriso disfarçado nos lábios pintados, a condizer com os sapatos vermelhos, e passou pelo povo, como cão por vinha vindimada.

Entretanto, o Presidente levantou-se, como se nada tivesse acontecido, ajeitou os cabelos e a gravata, apertou os botões do casaco, abeirou-se do microfone e quando ia a começar a falar houve uma debandada geral: todos os que, no quinto dia, vieram de todos os lados para ver o Presidente, que todos comentavam ter falecido, sentado na cadeira do seu palanque, retiraram-se, apressadamente, da praça.

Pasmado, o Presidente ficou novamente sozinho, em cima do palanque, na praça vazia, sem ter a quem dirigir o seu discurso sobre o estado da governação.

Nem, um cão! Nem um pássaro. Ninguém.


in «OS DIAS DE JOSÉe Outras Narrativas...» © Josefina Maller (a aguardar publicação)


(1) Dire l’orazione della bertuccia – Falar por entre dentes (locução latina).

Origem da imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgzLk4LQ_PS9ocIR9wzgP1lWaTn2wS4sTx2cj8kAcSdKhxfZ77NtGoxWli9li6lom95rzhJ5iiyYRebv4dNwA7YOZsY84k8rAGAYzRxSrdUStHdOC7uKjEUb53ATHS6113qtWoKcX2FipE/s1600/macaco_rindo.jpg


sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO PARTIU...



José Saramago morreu?


Era bom carácter? Mau carácter? Era ateu? Incomodava? Era comunista? Polémico?
O escritor morreria de verdade?

A Literatura Portuguesa perdeu o homem, mas ficou com a sua obra. Uma obra maior. Polémica? Certamente. Se não fosse polémica não seria maior. Lugares comuns não entram para a História, nem para a eternidade.

Saramago morreu? Não!

No mundo ficaram as suas palavras imortais, que o tornam imortal.

Saramago não morreu.

Partiu para uma outra dimensão da sua existência, deixando-nos a lembrança de um homem que nunca esteve bem com o mundo nem com uma humanidade tão desumana...


(Origem da imagem)
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjHwsCKtP_IXfAkVsbOGiOfzBgkidf5x5OatjCHeKxM5Zaf19Q3FGECCNkjarcC2eiV1HldLAwktGOh88V0NpGcFt7ValhOEK9_mCriSDHeyOvzLr5JJiJedgV5gghFcqeJUWv81GCHmeg/s400/jose_saramago01.jpg

CANÇÃO DO VENTO E DA MINHA VIDA



(Um tributo a Manuel Bandeira, grande poeta brasileiro)



O vento varria as folhas,

O vento varria os frutos,

O vento varria as flores...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De frutos, de flores, de folhas.



O vento varria as luzes,

O vento varria as músicas,

O vento varria os aromas...

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De aromas, de estrelas,

De cânticos.



O vento varria os meses

E varria os teus sorrisos...

O vento varria tudo!

E a minha vida ficava

Cada vez mais cheia

De tudo.

Manuel Bandeira

(Origem da imagem: http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/literatura/manuel_bandeira/imagens/retratoManuelBandeira.jpg

quarta-feira, 9 de junho de 2010

PRIMEIRO ANDAMENTO...


(OU O DELÍRIO PRIMEIRO DE OSKAR)

Maquinalmente, obedeci àquela ordem, por não ter outra alternativa, ou talvez tivesse simplesmente seguido o instinto que sempre norteou os passos da minha vida, impelindo-me para rumos, por vezes, impensáveis, diria mesmo, surrealistas, por onde me embrenhava, procurando alcançar o indefinível da existência, que sempre tanto me fascinou…


«Vai, segue o caminho do infinito. Nele encontrarás o arbusto-do-lobo, que te abrirá uma porta!» — aquela voz, profunda e poderosa, misteriosa e longínqua, ainda ecoava em mim.

Tudo começou à hora em que os pássaros regressam às árvores e adormecem. Um rugido terrível, oriundo das mais profundas e sombrias trevas, rasgou os meus ouvidos e atordoou todos os meus outros sentidos. Depois, aquela força incorpórea arrastou-me como o vento arrasta as folhas secas das árvores, no Outono, para aquele lugar longe e estranho, selvagem e ermo, onde havia um caminho traçado numa paisagem agreste, de onde a vida se ausentara, e apenas penhascos gigantescos, negros e sinistros, esguios como dedos acusadores, apontados para o alto, habitavam.

O caminho era arenoso. Hostil. Interminável. Medonho na sua nudez. De horizontes inatingíveis e indefinidos. E o vastíssimo deserto, que eram as suas margens, esmagava-me e causava-me uma sensação de subalternidade, como se eu não passasse de um minúsculo verme a rastejar por aquele chão poeirento, aos pés de gigantes implacáveis.

O peso daquele deserto doía-me como se carregasse sobre os ombros todos os grãos de areia de que era feito. Seria o mais árido de todos os desertos, cujas geografias, moldadas, talvez, há milhões de anos, por mãos hábeis e invisíveis, guardavam segredos que poderiam ser desvendados por quem se atrevesse a enfrentá-lo de corpo inteiro. Mas não certamente por mim, não nas minhas circunstâncias: um homem caído em desgraça. Eu, que conhecia quase todo o mundo habitado pelos homens, não sabia de um lugar assim. Ocorreu-me, então, que aqueles ventos enraivecidos que, naquela tarde, varreram a Terra, tivessem, talvez, me arremessado a um outro planeta, deserto e desconhecido, já destruído por outros seres tão desprovidos de bom senso como os povos terrestres.

Provavelmente, aquele deserto já fora um lugar verde, coberto de ciprestes, que vivem eternidades, e de pequenos arbustos, plantas também eternas, que deviam torná-lo apetecível à vida, ainda que a uma vida subterrânea, nocturna, como é próprio das areias. No entanto, à época desta minha desventura, aquele era um verdadeiro lugar de morte, pior ainda, um lugar de uma solidão indizível, daquelas que nos condena a rastejar como vermes, de tanto que nos esmaga. O silêncio cingia-o, como a cobra abraça a sua presa, e era algo extraordinário, rasgado por uns estranhos rumores, que se assemelhavam a gemidos angustiantes, distantes, que até àquele lugar chegavam, disfarçados no hálito sufocante que envolvia o caminho.

Eu por ali caminhava, completamente abandonado à minha desgraça. Seguia um trilho desconhecido, debaixo de um Sol, implacável e libidinoso, que lambia a paisagem com as suas mil e uma línguas de um fogo que lançava sobre a Terra, como um castigo, tornando-a seca, tão seca que os meus passos, ainda que leves, trôpegos e inseguros, deixavam uma nuvem de poeira, à minha passagem, como se por ali tivesse cavalgado um tropel de cavalos assustados. O Sol tinha a outra cor da morte. Era vermelho. Diz-se que a morte é negra. No primeiro instante, talvez, depois vem uma luz extasiante, que nos atrai e nos convida a segui-la sem medo. Contudo, a morte é igualmente vermelha, como o sangue que flúi pelas nossas entranhas. O sangue é vida, é morte. Se corre no seu leito venoso é vida. Coagulado no chão, é morte. Aquele era um Sol rubro, que não cumpria o seu destino: não iluminava, incendiava; não aquecia, queimava; não acariciava, açoitava. Dir-se-ia que a estrela maior de todo o Universo mostrava toda a sua revolta contra um mundo que não soube respeitar a sua energia benévola, por isso, agora, agredia esse mundo, como um castigo, pelos descomedimentos de séculos e séculos a fio.

Seguia aquele caminho desconhecido, projectado, talvez, num tempo de que já se perdera o rasto, perseguido por aquela voz que, desde o instante primeiro da minha desdita, me sussurrava: «Vai, segue o caminho do infinito. Nele encontrarás o arbusto-do-lobo, que te abrirá uma porta»!

E isto era tudo o que sabia. Deslocava-me com lentidão, oscilando, desengonçadamente, ossos contra ossos, num desajeito próprio da minha condição invulgar, até porque não era fácil arrastar os pés descarnados, num caminho feito de uma mistura de areia e pedra triturada, rudemente batido por um tempo eterno, imaginava eu, e ressequido pela total ausência de humidade.


Excerto do livro «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Origem da imagem:  olhares.aeiou.pt/deserto_do_saara_foto898167.html


quarta-feira, 2 de junho de 2010

DITOSO VELHO!...



Era um casebre velho. Muito velho. Pequeno. Mofoso. Destelhado. De um só compartimento.


Nele habitavam um velho e o seu fiel amigo, um cão, já velho também, chamado Gaspar, e cego de um olho.

O velho sobrevivia das sobras que, todos os dias, coxeando, recolhia pelas portas das casas, acompanhado do seu cão. Dois farrapos de vida caminhando pelas ruas da cidade nova, que cresceu ao redor da colina, onde o casebre velho, do homem velho, se mantinha de pé, graças a um qualquer milagre inexplicável.

Quando chegava a casa, o velho repartia a comida com Gaspar, que agradecia tanta bondade, abanando o rabo e lambendo-lhe as mãos e o rosto. Por vezes, a colheita era minguada. Mas tal não impedia o velho de dividir o pouco que havia para comer, com o seu adorado cão. O seu único amigo. A sua única alegria. O seu único bem. Ditoso velho! (1)

Assim viveu durante alguns anos, pode dizer-se, feliz, porque a amizade e a lealdade de um cão dão alegria a um homem solitário, e para o velho nada no mundo valia mais do que a amizade daquele seu único, fiel e verdadeiro amigo.

Porém, lentamente, a idade foi-lhe consumindo as pernas e as forças, e chegou o tempo em que o velho não mais pôde mendigar pelas ruas da cidade nova. Passava os dias e as noites, deitado na enxerga já gasta, corroído pela fome e pelo frio. Gaspar, a seu lado, lambia-lhe o rosto, num gesto de desvelado carinho, e gania baixinho, condoído pela dor do companheiro.

O Inverno chegara, impiedoso. O velho e o cão partilhavam a mesma tigela que armazenava a água da chuva, que bebiam. Era tudo o que tinham. Certa manhã, o velho olhou para o cão com uns olhos estranhos. E se o matasse e comesse a sua carne? Aplacaria aquela fome que lhe devorava as entranhas e talvez conseguisse algumas forças para poder voltar a mendigar!

Maldito pensamento! Gritou, de súbito, o velho. Como podia engendrar tal execração! Os olhos de Gaspar olhavam-no com tanta piedade, tanto carinho! Que blasfémia! O velho abraçou o cão e chorou amargamente. Prefiro morrer, meu fiel amigo, do que comer a tua carne para poder viver, porque há valores que falam mais alto do que a própria fome. Prefiro morrer livre, do que escravo da necessidade. Sussurrou o velho, cingindo Gaspar com as poucas forças que lhe restavam. E naquele dia, permaneceu imóvel, abraçado ao cão até ao anoitecer.

Quando o Sol se escondeu, por detrás da colina, com ele levou a alma do ditoso velho. Gaspar, apercebendo-se de que o seu amigo o deixara, uivou como nunca tinha uivado. Lambeu-lhe o rosto inerte e frio, numa tentativa de lhe devolver a vida. Olhou-o com um olhar profundamente triste. Agora, tinha o velho, todo para ele. Poderia começar a rasgar-lhe as carnes, e a saboreá-lo. A fome também lhe roía as entranhas. Gaspar tornou a contemplar, condoído, o cadáver do seu velho amigo. Ganiu baixinho, como que chorando. Depois aninhou-se ao seu lado, e ali ficou.

Quanto tempo, não se sabe. O que se sabe, foi o que se viu, um dia, quando vieram demolir o casebre, para ali construírem uma grande superfície: os esqueletos de um velho e de um cão, enlaçados, sobre a enxerga apodrecida, que ambos partilharam, na vida e na morte.

(1) Fortunate senex – Locução latina que se aplica a qualquer ancião que tem uma velhice feliz.

in «OS DIAS DE JOSÉ... e Outras Narrativas» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Origem da imagem: http://www.cki.com.br/Favoritos/videos_e_fotos.htm