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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

QUE MUNDO REFLECTIRÃO ESTES OLHOS?...


 
Uns olhos que nos cativam

Uns olhos que nos esmagam a alma

Uns olhos que carregam o peso de um mundo perverso

Uns olhos de um ser acossado

Uns olhos que nos acusam da falta de humanidade

Uns olhos que imploram amor

Uns olhos que são adagas

Uns olhos que falam de angústia

Uns olhos que cegam outros olhos

Uns olhos que nos dizem de um sofrimento desumano

Uns olhos de infância perdida

Uns olhos sem esperança...

Que mundo reflectirão estes olhos?...
 
Josefina Maller

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A "MENINA NUA" - A HISTÓRIA DESCONHECIDA DA FAMOSA ESTÁTUA DO PORTO


 
A "Menina Nua"
Chamava-se Aurélia Magalhães Monteiro e era conhecida por Lela, Lelinha ou pela “Ceguinha do 9” - para a eternidade ficará sempre a ser a “Menina Nua” da Av. dos Aliados, estátua que toda a cidade conhece e aprecia.

Nasceu no dia 4 de Dezembro de 1910, na freguesia do Bonfim e, pouco tempo antes de falecer, dizia-me que “tinha sido uma das mulheres mais apreciadas e cobiçadas do seu tempo...”.


Vivia no rés-do-chão do Bloco 9 do Bairro da Pasteleira, numa casa simples e humilde com flores a enfeitarem a entrada e a sala de jantar.


Um dia convidou-me a entrar e contou-me um pouco da história da “Menina Nua”:


- «Tinha 21 anos quando fiz de modelo para o Henrique Moreira, o mestre que fez a estátua: Mais tarde colocaram-me na Avenida dos Aliados - que belos anos aqueles! Estive duas semanas a “posar” e ainda hoje recordo com alegria e saudade aqueles momentos de trabalho, pois posso morrer amanhã que todos ficarão a saber quem era a Lela... Além disso, nessa altura, dava-me bem com os artistas, era bonita e eles convidavam-me. Andava por toda a parte, ganhei uns “cobres” com o Henrique Moreira, mas hoje... Resta-me a consolação de estar ali, de costas voltadas para o Almeida Garrett e de frente para o D. Pedro IV.»
Perguntei-lhe nessa altura se não tinha havido problemas com a nudez da estátua - por exemplo, proibições, censuras.

Ela respondeu-me:


- «Bem, sabe que naquela época havia certos sectores que se opunham claramente e até ficaram escandalizados com a “Menina Nua”. Nós éramos muito tacanhos e veja bem que há 50 anos as ideias eram realmente diferentes. Havia o Salazar, a Pide e o povo era mais fechado, mais religioso. Felizmente o mestre Henrique Moreira conseguiu “levar a água ao seu moinho” e lá fiquei, de pedra e nua, assim como Deus me botou ao Mundo...»
Sorriu de imediato, mostrando ainda réstias de um rosto bonito e de uma boca fina, onde já rareavam os dentes, vítima do peso dos anos e das canseiras e desgraças da vida. Além disso, imagine uma “moçoila”, no tempo da “outra senhora”, a expor-se toda nua perante uns homens de tela e pincéis ou bocados de pedra. Bem... era quase como ser comunista ou mulher da vida.
Fez-se uma pausa para mandarmos umas “bocas” contra o sistema do antigamente. Prossegui, perguntando-lhe quando e onde tinha começado a ser modelo. Antes de me responder, fica um pouco pensativa, levanta-se e encaminha-se para o seu quarto, vasculha dentro do guarda-vestidos e traz-me um amontoado de papéis e fotografias.
- «Vá, veja lá tudo isto» - diz-me. (Anotei visualmente uma série de fotografias, pequenas referências, recordações e memórias da “Menina Nua”). «De qualquer modo, e se a memória não me falha, comecei com o mestre Teixeira Lopes, na figura-modelo da rainha D. Amélia. Esta estátua encontra-se atualmente no museu com o mesmo nome, em Vila Nova de Gaia. Nessa época tinha muita vergonha. Era uma “moçoila” com 18 anos, bem feita e bonita. A minha mãe tinha falecido e fiquei mais tarde com uma madrasta, de quem por acaso não gostava nada; por isso mudei-me para o Bonfim, para casa da minha santa avó. Que tempos... Nessa altura, iniciei-me como modelo nas Belas Artes do Porto e lentamente fui-me habituando, até que fiquei mais descarada...»
Levantou a cabeça e, numa reflexão interior, com risos de vaidade e inconformismo, continuou:
- «Ah, nesse tempo, punha a cabeça dos rapazes em fogo, era bonita e não havia ninguém que não me conhecesse como a “Menina Nua”. Depois passei alguns anos como modelo, andei pelo Norte, pelo Sul e até a Lourenço Marques (hoje Maputo) eu fui. Fiz de modelo para vários mestres, entre eles: Acácio Lino, Joaquim Lopes, Dórdio Gomes, Sousa Caldas, Augusto Gomes, Camarinha e os consagrados Henrique Moreira e Teixeira Lopes. Além da “Menina Nua”, estou no Buçaco, no Cinema Rivoli, em Lisboa e em Moçambique... E hoje? Como vê, aqui estou, desde os 43 anos cega, uma vida difícil de adaptação, um mundo escuro, negro. E mais negro se tornou aquando da morte do meu marido. Fiquei completamente só.
Hoje, passados alguns anos, tenho um casal a viver comigo, sempre me ajudam a pagar a renda e a fazer-me um pouco de companhia. Tenho umas ajudas do Centro de Dia da Terceira Idade, ligado ao Centro Social cá do bairro, onde vou almoçar e lanchar. Enfim, sempre ajuda a passar o tempo e a velhice. Mas o que eu mais desejava na vida, além de mais dinheiro para viver, era dos meus ricos olhos...» (Algumas lágrimas correram-lhe pelas faces, enquanto se preparava para ir almoçar ao Centro.)
Despedi-me dela, tentando consolá-la com frases de carinho e amizade, mas a vida é um cão que não conhece o dono… Ela despediu-se (nessa altura), com um bom dia, entrecortado com um sorriso morgaiato, misto de Ribeira, Bonfim e Pasteleira...


Aurélia Magalhães Monteiro, a Lela, a Lelinha ou a “Ceguinha do 9”, faleceu no dia 2 de Junho de 1992, com 82 anos de idade. No entanto, a “Menina Nua” continua viva, fixa e eterna, ali na Avenida dos Aliados, envolta nos nevoeiros citadinos, perpétua e ardente, nos dramas e vitórias deste povo.


Do livro "Pasteleira City", de Raul Simões Pinto – Edições Pé de Cabra – Fevereiro de 1994
(com ligeiras adaptações)

sábado, 27 de outubro de 2012

O ABISMO ATRAI O ABISMO…


 
Caminhava no escuro como um cego.

A rua era comprida. Demasiado estreita. Viscosa. Parecia até habitada por morcegos, que gritavam quando ouviam os seus passos, secos, a agredir as pedras, molhadas pelas brumas que por ali se enredavam. Não havia Lua. Não havia estrelas. Não havia sequer uma luz acesa. Todas as janelas das casas estavam fechadas. Pelas frinchas espreitava a escuridão.

Ela procurava a Voz. Uma velha, muito velha, dissera-lhe para seguir por aquela rua. Aí encontraria, certamente, essa Voz. Claro que não era uma voz qualquer. Mas porquê numa rua tão escura, tão estreita, tão viscosa, habitada por morcegos, que gritavam ao ouvirem os seus passos?

Continuou a caminhar como se flutuasse. Não via absolutamente nada. Não, ela não sentia medo. A sensação era outra. Era como se o seu próximo passo fosse lançá-la num abismo. Por isso, caminhava com cuidado. Continuava a ouvir os gritos dos morcegos, mas não os via. Talvez nem fossem morcegos. O que sabia ela dos seres noctívagos? Nada. Não sabia nada. Absolutamente nada.

E o que era ou de quem era a Voz que ela procurava? Também não sabia. Então o que fazia ali? Questionou-se. Na verdade, precisava de ouvir a Voz. Foi o que a velha, muito velha lhe aconselhara. E apenas naquela rua, comprida, estreita e viscosa, a encontraria.

De súbito, um cântico semelhante àquele que os pescadores dizem ser de sereias que vagueiam no mar, despertou-lhe os sentidos. Um cântico que nos atrai para um determinado lugar. Que nos impele. Que nos seduz. Que nos faz seguir um caminho e não outro. Seria essa a Voz que ela deveria ouvir? Uma Voz que habitava a escuridão?

Cada um dos seus passos mais a aproximava desse cântico. Só voz. Sem palavras. Como se fosse um grito bradado em forma de canto, para seduzir uma alma, perdida nas trevas, e mostrar-lhe um caminho. Algo que existe para embriagar a consciência. Percorreu mais alguns metros e viu-se diante de uma porta entreaberta, de onde saía uma luz ténue e tremente. Ao aproximar-se da porta, ouviu nitidamente aquele cântico.

Contudo, logo que colocou o pé na soleira dessa porta, fez-se um breve silêncio, e logo uma voz tonitruante soou lá de dentro, redizendo como um eco: o abismo atrai o abismo[1], o abismo atrai o abismo, o abismo atrai o abismo…

           

Só então ela se apercebeu de que deveria regressar, urgentemente, ao seu mundo iluminado…



[1] Abyssus, abyssum invocat – Asneira puxa asneira (Salmo de David).
 
in «OS DIAS DE JOSÉ... E OUTRAS NARRATIVAS» © Josefina Maller (aguarda publicação)
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O MEU NOME É MULHER...


 
O meu nome é MULHER!
No princípio eu era a Eva
Criada para a felicidade de Adão
Mais tarde fui Maria
Dando à luz aquele
Que traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi:
Não dá mais!
Quero a minha dignidade
Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha
Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou camioneira, taxista,
Piloto de avião, policial feminina,
Operária em construção...
Ao mundo peço licença
Para actuar onde quiser
Meu sobrenome é COMPETÊNCIA
E meu nome é MULHER...
 
(Autor é Desconhecido)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

PLANTA O TEU JARDIM...


 
 
... O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso planta o teu jardim e decora a tua alma,
ao invés de esperar que alguém te traga flores...
William Shakespeare
 
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O QUE NÃO APRENDEMOS...


 
Aprendemos a voar como os pássaros,
a nadar como os peixes,
no entanto não aprendemos a simples arte de viver como irmãos...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A FORÇA DA ALMA...


 
Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força da sua alma, todo o universo conspira a seu favor.
Johann Goethe

terça-feira, 16 de outubro de 2012

SOBRE O AMOR...



O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê-la à beira de um precipício...

Sthendal


(Para ver e ouvir este belíssimo vídeo é necessário fazer stop na música de fundo)
 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

HARMONIA


 
Aquilo a que chamamos felicidade consiste na harmonia e na serenidade, na consciência de uma finalidade, numa orientação positiva, convencida e decidida do espírito, ou seja na paz da alma.

Thomas Mann