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terça-feira, 27 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DO HOMEM...


«No começo do Génesis está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro que o Génesis foi escrito por um homem, e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo.» 
 Milan Kundera

terça-feira, 26 de abril de 2011

O CHARCO...

O dia esmorecia.
O fim de tarde chegou chuvoso. Na vala comum, onde se sepultavam os indigentes, havia ficado um homem, que não coube na sepultura da família, guardada por um anjo de pedra, que sorria levemente, e onde já estavam os seus pais e os pais dos seus pais. Contudo, era demasiado pequena para o seu corpo grande.

Nada correu bem, naquele funeral. À dor da partida, juntou-se a dor de ver ficar um ente querido num lugar que não lhe pertencia.
Saímos do cemitério com lágrimas que se confundiam com os pingos da chuva que caía...

“Rain and tears are the same...» Cantei baixinho…
Do lado de fora do cemitério, formaram-se poças de água.

Numa delas, reflectiam-se os ramos de uma árvore sem folhas.
Era Inverno. Chovia.

Decidi aprisionar para sempre, nas águas do charco, aqueles ramos tristes, em memória daquele que por ser um homem grande, não coube na sepultura que devia ser a sua.
© Josefina Maller

terça-feira, 2 de novembro de 2010

NOTAS PARA UMA REFLEXÃO SOBRE A INTERFERÊNCIA DO HOMEM NA VIDA DO PLANETA




NOTA PRIMEIRA


Depois de criado o Céu, e de separadas as águas da terra, e de a luz ter alternado com as trevas, e de as estrelas iluminarem o firmamento, e de o Sol e de a Lua distinguirem os dias das noites, vieram as plantas de todas as espécies, desde os mais frondosos embondeiros, à mais pequenina e frágil flor da planície, e nasceram então os verdes prados e os silenciosos bosques.

Vieram depois os animais marinhos, igualmente de todas as espécies, e coloriram as profundezas do mar.

Vieram as aves, aladas, e dominaram as alturas. Vieram todos os animais terrestres, desde os mais fortes, às mais delicadas borboletas.

E só depois de todas as criaturas terem experimentado, por uns breves tempos, uma vivência pacífica, num paraíso feito de harmoniosa beleza, surgiu, por fim, o homem, que não veio só. Com ele veio também aquela que, dali em diante, daria vida à vida – a mulher.

E este foi o início do caos.

© Josefina Maller

Origem da foto: http://www.meupapeldeparedegratis.net/fantasy/pages/lost-paradise.asp

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ACTO DE AMOR...





A flor nasce

para colorir

a tristeza do homem...




Mas a vida da flor

é efémera

assim como efémera

é a alegria do homem...


Porém

mais vale a felicidade breve

do que a tristeza perene...


Semear uma flor

para colorir a tristeza

do homem

é um acto de amor...


(Texto e fotografia © Josefina Maller)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

TERRA SECA...




Assim começa o futuro, erguido sobre uma terra seca.

O que é que ela tem para nos dar? Pergunta a criança quando começa a saber perguntar.
E a resposta é tão seca como essa terra onde a criança espera construir o seu futuro.
De quem será a culpa? Da terra porque é seca? Ou do homem porque a secou? Esse homem que se preocupa apenas em destruir a vida… Não pense ele que essa sua força perdurará e o manterá vivo e poderoso para sempre. Esse homem, que destrói o mundo com os seus excessos e as suas frivolidades.
E que valor tem uma vida morta? Se é apenas um monte de carne podre que serve de alimento aos vermes, os quais, desse modo, conseguem sobreviver nessa terra seca…
É aí que o poder desses vermes começa e acaba o do homem…
E assim se ergue o futuro sobre uma terra seca habitada apenas por vermes que esperam a carcaça do homem…
Esse homem que se recusa a reconhecer o valor da vida.

Terra seca! Vazia do homem! Vazia da vida! Entregue ao poder dos vermes…
E assim começa o futuro, erguido sobre uma terra onde só existirá restos de vidas mortas!...