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quarta-feira, 9 de junho de 2010

PRIMEIRO ANDAMENTO...


(OU O DELÍRIO PRIMEIRO DE OSKAR)

Maquinalmente, obedeci àquela ordem, por não ter outra alternativa, ou talvez tivesse simplesmente seguido o instinto que sempre norteou os passos da minha vida, impelindo-me para rumos, por vezes, impensáveis, diria mesmo, surrealistas, por onde me embrenhava, procurando alcançar o indefinível da existência, que sempre tanto me fascinou…


«Vai, segue o caminho do infinito. Nele encontrarás o arbusto-do-lobo, que te abrirá uma porta!» — aquela voz, profunda e poderosa, misteriosa e longínqua, ainda ecoava em mim.

Tudo começou à hora em que os pássaros regressam às árvores e adormecem. Um rugido terrível, oriundo das mais profundas e sombrias trevas, rasgou os meus ouvidos e atordoou todos os meus outros sentidos. Depois, aquela força incorpórea arrastou-me como o vento arrasta as folhas secas das árvores, no Outono, para aquele lugar longe e estranho, selvagem e ermo, onde havia um caminho traçado numa paisagem agreste, de onde a vida se ausentara, e apenas penhascos gigantescos, negros e sinistros, esguios como dedos acusadores, apontados para o alto, habitavam.

O caminho era arenoso. Hostil. Interminável. Medonho na sua nudez. De horizontes inatingíveis e indefinidos. E o vastíssimo deserto, que eram as suas margens, esmagava-me e causava-me uma sensação de subalternidade, como se eu não passasse de um minúsculo verme a rastejar por aquele chão poeirento, aos pés de gigantes implacáveis.

O peso daquele deserto doía-me como se carregasse sobre os ombros todos os grãos de areia de que era feito. Seria o mais árido de todos os desertos, cujas geografias, moldadas, talvez, há milhões de anos, por mãos hábeis e invisíveis, guardavam segredos que poderiam ser desvendados por quem se atrevesse a enfrentá-lo de corpo inteiro. Mas não certamente por mim, não nas minhas circunstâncias: um homem caído em desgraça. Eu, que conhecia quase todo o mundo habitado pelos homens, não sabia de um lugar assim. Ocorreu-me, então, que aqueles ventos enraivecidos que, naquela tarde, varreram a Terra, tivessem, talvez, me arremessado a um outro planeta, deserto e desconhecido, já destruído por outros seres tão desprovidos de bom senso como os povos terrestres.

Provavelmente, aquele deserto já fora um lugar verde, coberto de ciprestes, que vivem eternidades, e de pequenos arbustos, plantas também eternas, que deviam torná-lo apetecível à vida, ainda que a uma vida subterrânea, nocturna, como é próprio das areias. No entanto, à época desta minha desventura, aquele era um verdadeiro lugar de morte, pior ainda, um lugar de uma solidão indizível, daquelas que nos condena a rastejar como vermes, de tanto que nos esmaga. O silêncio cingia-o, como a cobra abraça a sua presa, e era algo extraordinário, rasgado por uns estranhos rumores, que se assemelhavam a gemidos angustiantes, distantes, que até àquele lugar chegavam, disfarçados no hálito sufocante que envolvia o caminho.

Eu por ali caminhava, completamente abandonado à minha desgraça. Seguia um trilho desconhecido, debaixo de um Sol, implacável e libidinoso, que lambia a paisagem com as suas mil e uma línguas de um fogo que lançava sobre a Terra, como um castigo, tornando-a seca, tão seca que os meus passos, ainda que leves, trôpegos e inseguros, deixavam uma nuvem de poeira, à minha passagem, como se por ali tivesse cavalgado um tropel de cavalos assustados. O Sol tinha a outra cor da morte. Era vermelho. Diz-se que a morte é negra. No primeiro instante, talvez, depois vem uma luz extasiante, que nos atrai e nos convida a segui-la sem medo. Contudo, a morte é igualmente vermelha, como o sangue que flúi pelas nossas entranhas. O sangue é vida, é morte. Se corre no seu leito venoso é vida. Coagulado no chão, é morte. Aquele era um Sol rubro, que não cumpria o seu destino: não iluminava, incendiava; não aquecia, queimava; não acariciava, açoitava. Dir-se-ia que a estrela maior de todo o Universo mostrava toda a sua revolta contra um mundo que não soube respeitar a sua energia benévola, por isso, agora, agredia esse mundo, como um castigo, pelos descomedimentos de séculos e séculos a fio.

Seguia aquele caminho desconhecido, projectado, talvez, num tempo de que já se perdera o rasto, perseguido por aquela voz que, desde o instante primeiro da minha desdita, me sussurrava: «Vai, segue o caminho do infinito. Nele encontrarás o arbusto-do-lobo, que te abrirá uma porta»!

E isto era tudo o que sabia. Deslocava-me com lentidão, oscilando, desengonçadamente, ossos contra ossos, num desajeito próprio da minha condição invulgar, até porque não era fácil arrastar os pés descarnados, num caminho feito de uma mistura de areia e pedra triturada, rudemente batido por um tempo eterno, imaginava eu, e ressequido pela total ausência de humidade.


Excerto do livro «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Origem da imagem:  olhares.aeiou.pt/deserto_do_saara_foto898167.html


terça-feira, 11 de maio de 2010

ERA ENTÃO O MUNDO UM LUGAR DE DESENCANTO…


Era então o Mundo um lugar de desencanto, macerado pela dor de uma agonia, lenta e irremediável. Devorado por séculos de uma ignorância e uma incúria inconcebíveis. Inaudível, nos seus lamentos mais lancinantes. Um lugar onde o cantar da cotovia soava a melodia fúnebre.

Era o tempo de todos os tempos. Infinito. Imutável. Inexorável...

Até que um dia…

Subitamente, os céus rasgaram-se num esgar de fúria.




As nuvens foram, num ápice, sugadas pela boca imensa de um tufão e, por todo o Planeta, soou um rugido medonho, saído de entranhas, longínquas e desconhecidas, como se alguém estivesse a assassinar o Universo, desferindo-lhe golpes de uma inacreditável crueldade, e o Universo, trespassado pela dor súbita, provocada por essa desordem, não pôde conter o seu grito. Os ventos uivaram com toda a raiva que os vinha sufocando desde os tempos em que a Mãe Natureza começou a sentir os primeiros sintomas de uma doença grave, que veio a demonstrar ser altamente contagiosa e que foi se agravando à medida em que algo a que se chamou progresso ia avançando. Os uivos do vento ecoaram, então, por todo o Universo, como um grito de libertação.

Era então o caos. O caos sublime.

Tudo aconteceu inesperadamente.

As carnes de todos os seres vivos começaram a cair como chuva fétida. Homens e mulheres, velhos e novos foram atacados pelo que se admite ter sido o mais surpreendente tédio do Universo. Fracos e fortes, bons e maus, todos os animais vertebrados e invertebrados, caminhantes e rastejantes sobre a Terra evolaram-se, então, impelidos por uma ventania endoidecida. Toda a vegetação murchou e as águas das fontes, dos rios, dos lagos e dos oceanos secaram, tal o poder flamífero do Sol que, saturado, cingiu o planeta com um deslumbrante manto de fogo. E esse fogo era tudo o que restava do caos.

Veio depois o vazio.

O nada, na sua mais absoluta significância. O nada, mas não as trevas. Era uma luz intensa que fulgurava. Tão ofuscante que causaria pasmo e aquele terror primordial do desconhecido, se alguém ficasse para contemplá-la.

Iniciara-se revolta dos elementos. Ferozes. Saturados de raivas acumuladas, há longos, longos séculos, pelos maus-tratos que lhes foram infligidos. Desprotegido, o Planeta ficou então inteiramente à mercê de um Sol insensível, único elemento dominante no caos em que o Universo se transformou, o qual envolveu a Terra num abraço funesto, ao lançar os seus raios ultravioletas, como flechas envenenadas, sobre todos os povos.

Todavia, pela Terra, deambulava o esqueleto de um homem que, misteriosamente, sobrevivera ao tédio do Universo. Um ser sonâmbulo. Amostra de um caos absoluto. Simulacro de sombra ou vivo-morto, sem condição para repousar, em paz, o corpo descarnado. Por isso, aguardava, expectante, o desfecho desta rebelião dos elementos, e um destino singular e inimaginável, que o aguardava, lá, num lugar secreto, onde a vida fluía como um milagre…


in «A HORA DO LOBO» © de Josefina Maller (a aguardar publicação)