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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SONHOS...



Os sonhos são como flores esquecidas na planície

Que ao menor sopro do vento emurchecem

E nem o Sol, nem as brisas suaves, que sopram do Sul

Conseguem fazer renascê-las...

E a terra absorve a sua seiva, transformando-a no húmus

Que alimentará outras vidas.

E ali ficam os sonhos, enterrados na planície,

Esquecidos,

Perdidos para sempre...


Texto e Foto © Josefina Maller

segunda-feira, 17 de maio de 2010

MADRUGADAS...



Por vezes, a preguiça do Sol cobria a planície de brumas e silêncio. Porém, Rajid, que despertava todas as manhãs com o lamento de um melro, o qual fazia ninho entre os ramos de uma bela acácia, partia para a sua habitual digressão, apesar da penumbra.


Uma brisa delicada embalava as flores e as ervas da planície, ainda meio adormecida, e Rajid trotava com cuidado, não fosse despertá-las.

Porém, quase sempre, aquele silêncio era bruscamente interrompido pelo alvoroço do bater de asas e do cantar de um bando de pássaros azuis que vinha saudar a manhã.

A eles juntava-se o burburinho das águas, a sinfonia da folhagem e o relincho terno de Rajid. O Sol fazia dissipar então as brumas que o envolviam e descobria-se, radiante, enchendo de uma luz radiosa a paisagem.

A Natureza despertava do seu sono nocturno e tudo à sua volta se transformava, como que por magia.

Eram assim as madrugadas de Rajid, o cavalo selvagem.


in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O RIACHO...



Rajid era sensível como as asas de uma borboleta. Bravio, porém delicado como uma flor, quando era preciso.

Naquele dia, ao fim da tarde, atravessou a planície trotando cuidadosamente, para não magoar as ervinhas e as flores.

O Sol descia lentamente, em direcção às montanhas, entre as quais em breve se afundaria. Por enquanto, enternecia a paisagem, tornando-a levemente rosada, e mirava-se nas águas de um riacho que serpenteava, feliz, por entre as serras.

Rajid aproximou-se do vale e pode então contemplar de mais perto o riacho. Era o seu primeiro encontro com a fonte da vida.

Abeirou-se suavemente daquelas águas cantantes, que corriam sem pressa e onde a folhagem das margens se reflectiam, esboçando um outro bosque – o bosque aquático. O cavalo selvagem debruçou-se para nelas saciar a sua sede, e pelo interior do seu corpo deslizaram os delicados fios da luz do Sol.

Foi então que, pela primeira vez, Rajid viu reflectida a sua própria imagem naquele espelho natural. A sua silhueta ali estava: negra, bela, primorosamente esculpida.

Rajid sorriu para o riacho. E enfeitiçou-o com o seu sorriso. As águas tornaram-se mais límpidas e transparentes, e Rajid mirou-se nelas, longamente. Olhou o seu próprio olhar, numa tentativa de indagar o seu íntimo, e, em verdadeiro delírio, descobriu a essência do seu ser.

O riacho, enfeitiçado pela beleza negra de Rajid, fez cantar as suas águas mais baixinho, para não perturbar o êxtase do momento, e prolongou-o infinitamente...


in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O PRIMEIRO DIA...






Rajid era a obra-prima do Criador.

Nobre, de músculos fortes, perfil bem desenhado e sereno, o seu corpo negro, macio e brilhante contrastava com o verde da planície onde nascera. Os seus olhos de azeviche assemelhavam-se a duas estrelas a brilhar na noite.

Era meigo e suave como uma libelinha. Contudo, havia nele algo de agreste. Nasceu sem ter sido gerado. Nasceu livre e selvagem. Era filho da planície, mas também dos bosques, das florestas.

Como era belo e perfeito Rajid! O seu olhar profundo e penetrante fazia estremecer a natureza. E as flores, tímidas, só de olhá-lo, tornavam-se mais coloridas.

O primeiro dia de vida na Terra havia começado para o cavalo selvagem e para todos os outros seres, que experimentavam a maravilhosa sensação de fazer parte de um mundo harmonioso e perfeito. Todos sentiam a mesma curiosidade acerca da sua própria existência e do que os cercava. Estavam como que enfeitiçados pela grandiosidade do momento que acabavam de viver.

Rajid não escapou ao feitiço, e espreguiçava o olhar, extasiado, pela planície salpicada de pequenas flores.

Do outro lado, o bosque, com as suas cúpulas verdes, era um desafio à sua imaginação. Teria toda uma vida para desvendar os seus mistérios.

Naquele momento, o vale, envolto em bruma, prendia a atenção de Rajid, mais do que tudo o resto.

in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)