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sábado, 15 de outubro de 2011

MADRUGADAS...


Por vezes, a preguiça do Sol cobria a planície de brumas e silêncio. Mas Rajid, que despertava, todas as manhãs, com o lamento de um melro, o qual fazia ninho entre os ramos de uma bela acácia, partia para a sua habitual digressão, apesar da penumbra.

Uma brisa delicada embalava as flores e as ervas da planície, ainda meio adormecida, e Rajid trotava com cuidado, não fosse despertá-las.

Porém, quase sempre, aquele silêncio era bruscamente interrompido pelo alvoroço do bater de asas e do cantar de um bando de pássaros azuis que vinha saudar a manhã.

A eles juntava-se o burburinho das águas, a sinfonia da folhagem e o relincho terno de Rajid. O Sol fazia dissipar, então, as brumas que o envolviam e descobria-se, fulgurante, enchendo de uma luz radiosa a paisagem.

A Natureza despertava do seu sono nocturno e tudo à sua volta se transformava, como que por magia.

Assim eram as madrugadas de Rajid...


in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (por publicar)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A INVENÇÃO DO HOMEM...


«No começo do Génesis está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro que o Génesis foi escrito por um homem, e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo.» 
 Milan Kundera

segunda-feira, 11 de julho de 2011

segunda-feira, 17 de maio de 2010

MADRUGADAS...



Por vezes, a preguiça do Sol cobria a planície de brumas e silêncio. Porém, Rajid, que despertava todas as manhãs com o lamento de um melro, o qual fazia ninho entre os ramos de uma bela acácia, partia para a sua habitual digressão, apesar da penumbra.


Uma brisa delicada embalava as flores e as ervas da planície, ainda meio adormecida, e Rajid trotava com cuidado, não fosse despertá-las.

Porém, quase sempre, aquele silêncio era bruscamente interrompido pelo alvoroço do bater de asas e do cantar de um bando de pássaros azuis que vinha saudar a manhã.

A eles juntava-se o burburinho das águas, a sinfonia da folhagem e o relincho terno de Rajid. O Sol fazia dissipar então as brumas que o envolviam e descobria-se, radiante, enchendo de uma luz radiosa a paisagem.

A Natureza despertava do seu sono nocturno e tudo à sua volta se transformava, como que por magia.

Eram assim as madrugadas de Rajid, o cavalo selvagem.


in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O RIACHO...



Rajid era sensível como as asas de uma borboleta. Bravio, porém delicado como uma flor, quando era preciso.

Naquele dia, ao fim da tarde, atravessou a planície trotando cuidadosamente, para não magoar as ervinhas e as flores.

O Sol descia lentamente, em direcção às montanhas, entre as quais em breve se afundaria. Por enquanto, enternecia a paisagem, tornando-a levemente rosada, e mirava-se nas águas de um riacho que serpenteava, feliz, por entre as serras.

Rajid aproximou-se do vale e pode então contemplar de mais perto o riacho. Era o seu primeiro encontro com a fonte da vida.

Abeirou-se suavemente daquelas águas cantantes, que corriam sem pressa e onde a folhagem das margens se reflectiam, esboçando um outro bosque – o bosque aquático. O cavalo selvagem debruçou-se para nelas saciar a sua sede, e pelo interior do seu corpo deslizaram os delicados fios da luz do Sol.

Foi então que, pela primeira vez, Rajid viu reflectida a sua própria imagem naquele espelho natural. A sua silhueta ali estava: negra, bela, primorosamente esculpida.

Rajid sorriu para o riacho. E enfeitiçou-o com o seu sorriso. As águas tornaram-se mais límpidas e transparentes, e Rajid mirou-se nelas, longamente. Olhou o seu próprio olhar, numa tentativa de indagar o seu íntimo, e, em verdadeiro delírio, descobriu a essência do seu ser.

O riacho, enfeitiçado pela beleza negra de Rajid, fez cantar as suas águas mais baixinho, para não perturbar o êxtase do momento, e prolongou-o infinitamente...


in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

ANIMISMO...






Para que a vida não fosse um mero rolar dos tempos, o Criador dotou todos os seus seres de entendimento, compreensão e sensibilidade. Em suma, de um ânimo essencial para o fluir da vida. A cada criatura foi igualmente concedida uma linguagem inerente à natureza do seu próprio ser.

Todos os animais e plantas compreendiam-se mutuamente, através de linguagens secretas, e, por vezes, no caso das pedras, o silêncio bastava. Nada havia sido criado sem sentido. Em tudo havia uma harmonia afectuosa e infinita.

O Sol foi criado com a finalidade de aquecer a Terra e afastar as trevas do mundo, para que, desse modo, todos os seres vivos pudessem saborear, com lucidez, a sua própria existência. A Lua e as estrelas cobriram o espaço com um manto de penumbra tépida, para que o descanso dos seres fosse mais terno.

A água seria a fonte da vida.

Os animais, através das suas vozes, e as plantas, com o murmúrio subtil da sua folhagem, quebrariam o silêncio do mundo e dar-lhe-iam movimento.

Rajid relinchava ternamente, como que agradecendo o privilégio de ter sido moldado pelas próprias mãos do Criador.

A vida fervilhava em todos os recantos da Terra. Toda a Natureza havia sido animada pela voz de Deus, e o planeta, recém-criado, rejubilava.

No espaço, ecoava um cântico de infinitas e enigmáticas vozes, que o Criador escutava deleitado. Era uma ode amorosa à sua obra, entoada por todas as criaturas viventes.

Rajid não era rei nem vassalo. Era um príncipe. O príncipe da Terra. Não dominava, apenas coexistia pacificamente com os outros seres das montanhas, dos vales, das planícies, dos bosques, dos mares e dos rios. Ele constituía o equilíbrio do paraíso que Deus criara para todos esses seres.

Somente as pedras permaneciam silenciosas. Eram elas o sustentáculo do mundo. De olhar mudo e vigilante, guardavam os mais profundos e indizíveis segredos da criação divina.

in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

RAJID...

Rajid era um cavalo selvagem. A mais bela e perfeita entre todas as criaturas que viveram nos bosques virgens, no início dos tempos.

Esta é a sua história. Uma história que nos fala do equilíbrio que existia na Natureza, na sua forma mais pura, e como ele, Rajid, um ser selvagem mas sensível, ajudou a manter esse equilíbrio até ao dia em que toda a harmonia – a própria essência da vida dos primeiros tempos – se perdeu com a chegada do homem, que fez emudecer a Natureza.

Apenas Rajid continuou eternamente selvagem, embora prisioneiro da sua própria liberdade, num mundo confinado com um vale profundo e inacessível, envolto em névoas perpétuas. Um pedacinho de mundo que Rajid conquistou ao homem e fez somente seu.


No início dos tempos nada existia. Era o vácuo.
          


Desejando Deus emergir das trevas e do silêncio que o rodeavam, criou a luminescência, e sob essa claridade fez brotar a vida e deu infinitas formas à sua ilimitada imaginação.
Foi então que do negro espaço celeste nasceu uma esfera de fogo, outra de prata e uma infinidade de esferas menores, tão luminosas e brilhantes como o mais puro dos diamantes. À primeira esfera o criador deu o nome de Sol, à segunda chamou Lua, e às restantes, estrelas.
O Sol reinaria de dia. A Lua e as estrelas brilhariam no escuro da noite.
E o universo iluminou-se, ora de uma luz irradiante, ora de uma luz delicada.
Aos olhos de Deus, porém, o que acabara de criar era demasiado insignificante, e decidiu então espalhar pelo espaço, astros, planetas, cometas, vias lácteas e outros sistemas solares. E o universo povoou-se de pequenas e grandes esferas. Umas mais cintilantes do que outras, mas todas misteriosas e belas. Contudo, pensou Deus, de que adiantava ter criado todo aquele imensurável universo se nele não palpitava a vida? Foi então que, num rasgo de criação, Deus escolheu um planeta entre os planetas – a Terra – e nele fez jorrar infinitas nascentes de água.

E a água foi a fonte da vida.

Sobre a Terra irromperam oceanos, rios, lagos, fontes, riachos e pântanos, e para que o planeta não ficasse todo coberto de água, Deus fez erguer montanhas para suster as correntes, e espalhou belas planícies e vales por toda aquela natureza que nascia.
Lentamente, a imaginação do Criador foi tomando mil e uma outras formas. Da terra brotaram ervas, flores e árvores com sementes para que se multiplicassem e não mais deixassem de crescer. E assim surgiram os prados verdes. Os jardins floriram. Os bosques e as florestas povoaram-se de folhagem viçosa. E o planeta encheu-se de beleza.
O silêncio, todavia, continuava profundo e perturbador. Foi então que a uma ordem de Deus uma leve brisa começou a soprar, fazendo correr as águas e sussurrar as flores e as ervas e a ramagem das árvores. E assim nasceram também as ondas do mar. E os prados, jardins e florestas encheram-se de uma melodia afectuosa, quase imperceptível, que transformou o silêncio num delicado murmúrio.
A obra de Deus, contudo, estava ainda incompleta.

Faltavam-lhe algumas criaturas. Deus ordenou, então, que as águas produzissem seres vivos. Que pássaros cruzassem o espaço. Que répteis rastejassem na terra, e que pequenos e grandes mamíferos proliferassem por todo o planeta.
E nos mares, rios e lagos surgiram peixes de várias cores e tamanhos. O espaço povoou-se de pequenos e grandes pássaros, e a Terra encheu-se de animais de muitas espécies.

Todos os lugares foram orvalhados com vida: as águas, a terra e o espaço. Já não havia trevas, nem silêncio. O mundo inundou-se de cânticos e de luz, mas faltava ainda a cor. Então, uma vez mais, o Criador, numa pincelada de mestre, encheu a sua criação das mais variadas tonalidades: o céu seria de um azul que se reflectiria nas águas; a folhagem deveria ser inevitavelmente verde, e para as flores todas as cores.
E aos cânticos e à luz juntou-se agora uma infinidade de tons, que encheram a Natureza de um impressionante colorido. E a Natureza, porque abrigava em si, todas as sementes, seria a Grande Mãe de todos os seres animados e inanimados, que daí em diante passariam a coexistir pacificamente.
Na última madrugada, aquela em que encerraria o acto da criação, Deus subiu à mais alta das montanhas e contemplou a sua obra, no entanto, ainda inacabada. Faltava-lhe criar um ser que, pela sua beleza, inteligência e conhecimento dos segredos do Universo, sublimasse aquele paraíso, acabado de nascer.
Foi então que, a um sopro de Deus, uma silhueta negra, tão negra como as trevas que existiam no início dos tempos, começou a desenhar-se entre o verde da planície.

Era Rajid – o cavalo selvagem – que nascia, como um raio de aurora, no jardim imperecível de Deus...

* Pintura de Argina Seixas

in «História de um Cavalo Selvagem» © Josefina Maller (a aguardar publicação)