© Todos os direitos reservados
Mostrar mensagens com a etiqueta Cão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cão. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de junho de 2010

DITOSO VELHO!...



Era um casebre velho. Muito velho. Pequeno. Mofoso. Destelhado. De um só compartimento.


Nele habitavam um velho e o seu fiel amigo, um cão, já velho também, chamado Gaspar, e cego de um olho.

O velho sobrevivia das sobras que, todos os dias, coxeando, recolhia pelas portas das casas, acompanhado do seu cão. Dois farrapos de vida caminhando pelas ruas da cidade nova, que cresceu ao redor da colina, onde o casebre velho, do homem velho, se mantinha de pé, graças a um qualquer milagre inexplicável.

Quando chegava a casa, o velho repartia a comida com Gaspar, que agradecia tanta bondade, abanando o rabo e lambendo-lhe as mãos e o rosto. Por vezes, a colheita era minguada. Mas tal não impedia o velho de dividir o pouco que havia para comer, com o seu adorado cão. O seu único amigo. A sua única alegria. O seu único bem. Ditoso velho! (1)

Assim viveu durante alguns anos, pode dizer-se, feliz, porque a amizade e a lealdade de um cão dão alegria a um homem solitário, e para o velho nada no mundo valia mais do que a amizade daquele seu único, fiel e verdadeiro amigo.

Porém, lentamente, a idade foi-lhe consumindo as pernas e as forças, e chegou o tempo em que o velho não mais pôde mendigar pelas ruas da cidade nova. Passava os dias e as noites, deitado na enxerga já gasta, corroído pela fome e pelo frio. Gaspar, a seu lado, lambia-lhe o rosto, num gesto de desvelado carinho, e gania baixinho, condoído pela dor do companheiro.

O Inverno chegara, impiedoso. O velho e o cão partilhavam a mesma tigela que armazenava a água da chuva, que bebiam. Era tudo o que tinham. Certa manhã, o velho olhou para o cão com uns olhos estranhos. E se o matasse e comesse a sua carne? Aplacaria aquela fome que lhe devorava as entranhas e talvez conseguisse algumas forças para poder voltar a mendigar!

Maldito pensamento! Gritou, de súbito, o velho. Como podia engendrar tal execração! Os olhos de Gaspar olhavam-no com tanta piedade, tanto carinho! Que blasfémia! O velho abraçou o cão e chorou amargamente. Prefiro morrer, meu fiel amigo, do que comer a tua carne para poder viver, porque há valores que falam mais alto do que a própria fome. Prefiro morrer livre, do que escravo da necessidade. Sussurrou o velho, cingindo Gaspar com as poucas forças que lhe restavam. E naquele dia, permaneceu imóvel, abraçado ao cão até ao anoitecer.

Quando o Sol se escondeu, por detrás da colina, com ele levou a alma do ditoso velho. Gaspar, apercebendo-se de que o seu amigo o deixara, uivou como nunca tinha uivado. Lambeu-lhe o rosto inerte e frio, numa tentativa de lhe devolver a vida. Olhou-o com um olhar profundamente triste. Agora, tinha o velho, todo para ele. Poderia começar a rasgar-lhe as carnes, e a saboreá-lo. A fome também lhe roía as entranhas. Gaspar tornou a contemplar, condoído, o cadáver do seu velho amigo. Ganiu baixinho, como que chorando. Depois aninhou-se ao seu lado, e ali ficou.

Quanto tempo, não se sabe. O que se sabe, foi o que se viu, um dia, quando vieram demolir o casebre, para ali construírem uma grande superfície: os esqueletos de um velho e de um cão, enlaçados, sobre a enxerga apodrecida, que ambos partilharam, na vida e na morte.

(1) Fortunate senex – Locução latina que se aplica a qualquer ancião que tem uma velhice feliz.

in «OS DIAS DE JOSÉ... e Outras Narrativas» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Origem da imagem: http://www.cki.com.br/Favoritos/videos_e_fotos.htm


sábado, 16 de janeiro de 2010

AS HISTÓRIAS MALUCAS DE TÓZEZINHO DE ALENCAR

Chamam malucas às minhas histórias. Mas deixem falar quem tem língua comprida. Eu cá não me ralo. Não vim criticar isto ou aquilo. Pediram-me apenas para contar histórias cá à minha maneira. E eu vou contar uma, e acreditem ou não acreditem, ela é verdadeira, pois passou-se bem à frente do meu nariz, lá para as bandas de onde eu moro, no Largo do Chafariz.
Esta é a história do cão mandrião, que passava o dia a fingir que dormia, à beira da Loja do Salsicheiro.

Ai que trapaceiro!
Com um olho dormitava. Com o outro, ele espreitava. E o Salsicheiro, volta e meia, e meia volta, tropeçava no rabo do cão e este gania, gania até fazer doer o coração. E, com feitiço nos olhos, o cão olhava o Salsicheiro como quem diz:

— Sou tão infeliz! Pisaste-me o rabo, ó seu diabo! Hás-de ir pró inferno!

E o Salsicheiro, já nisto vezeiro, dizia furioso:

— Está bem, está bem, eu cá me governo! Mas pára com isso!
E o espertalhão do cão ganhava um chouriço.

E todos os dias, isto acontecia. E o Salsicheiro não se apercebia de que o cão mandrião este truque fazia, porque já sabia do seu fraco eterno: o medo que tinha de ir para o inferno.




E assim, todos os dias, de feitiço em feitiço, o espertalhão do cão mandrião ganhava um chouriço.