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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O QUE APRENDI COM O LOBO

O Lobo não ataca sem motivo, nem luta desnecessariamente...
O Lobo não sente necessidade de demonstrar a sua capacidade a cada momento...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O TER É DA CARCAÇA, É DO EFÉMERO...






Um animal dito humano e um animal não humano têm de comum as mesmas necessidades: comer, beber, dormir, acasalar.
As mesmas ameaças: fogo, água, ventos, terramotos, doenças. E exactamente os mesmos sofrimentos físicos, e a dor moral da perda de um ser querido, do abandono, da indiferença. Sim, um é falante. O outro não. E depois? Tal aparente superioridade nunca protegeu o corpo de um indivíduo, dito humano, abonado com o dom da palavra, de ser devorado por um verme, com a igual sofreguidão com que um verme devora o cadáver de um porco, de um rato do campo ou de um pé de couve.

Diante do inevitável, homem, porco, rato do campo e pé de couve perecem como todas as coisas que são perecíveis. Já dizia um outro Zaratustra do mundo que somos a acumulação do que fomos antes, e seremos a acumulação do que hoje somos mais o que já fomos, e assim sucessivamente, para, no final, nos transformarmos todos em matéria putrefacta.
Resta-nos o espírito. E o espírito, esse sim, tem de ser imortal, de outro modo, a vida não faria qualquer sentido. Daí ser lógico cultivar mais o ser do que o ter. O ser é do espírito, é da imortalidade... O ter é da carcaça, é do efémero…

Oskar Kapriolo in «A Hora do Lobo»

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

DESLUMBRAMENTO...



De súbito,

as trevas dissipam-se

e sou árvore,

sou folha,

sou erva,

sou vento...

Sou gota de orvalho suspensa na flor.

Sou sombra, sou luz, sou nuvem que passa.

Sou ave que voa até às estrelas,

e entre elas vagueio

ao ritmo dos sons

do amanhecer…


in «A Hora do Lobo» © Josefina Maller

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

NO CORAÇÃO DAS COISAS…



Impõe-se saber que homem é este que, conduzido pelo instinto, seguiu um caminho desconhecido, em busca de algo que não podia sequer imaginar, e que acabou por envolvê-lo numa intrigante aventura, talvez real ou provavelmente fruto de uma alucinação, provocada por uma hipotética revolta dos elementos, engendrada no seu subconsciente.

A narrativa que se segue é sobre a experiência e o testemunho daquele que sobreviveu ao tédio do Universo; e diz, igualmente, do seu pensamento e dos seus discursos impróprios, seguidos de caos.

Esta é, enfim, a gesta de Oskar Kapriolo.

Atrevo-me a contá-la, ainda que contra a vontade do próprio Oskar, receoso de que a sua história possa ser interpretada como mais uma daquelas ficções inverosímeis, que se forjam para entreter as mentes e afastá-las do essencial, do urgente, daquilo que na realidade interessa, ou seja, da tão ansiada reconstrução do mundo, para que possamos regressar ao paraíso primordial. No entanto, estou disposta a correr esse risco, até porque num mundo onde todas as coisas acontecem não por acaso, viajar pelo interior, ainda que de uma alucinação, afigura-se-me uma façanha verdadeiramente fascinante. E, além de me deleitar com uma boa aventura, agrada-me decifrar os enigmas que, eventualmente, essa aventura possa proporcionar-me.

Por outro lado, conheço Oskar há longo tempo. Desde o tempo em que ambos trabalhávamos no mesmo jornal. Segui-o pelo mundo, profissionalmente (é imperioso dizer), registando em imagens o que ele ia construindo com palavras. Eu era a “sua” fotógrafa, mas também a sua confidente e cúmplice, nas horas difíceis, quando as coisas aviltantes de um mundo, em franca derrapagem, o esmagavam a ele, tanto quanto a mim.

Mais tarde, já numa outra fase da sua vida profissional, quando se tornou um escritor famoso, Oskar pediu-me para que continuasse a acompanhá-lo nas suas viagens, com a finalidade de registar imagens e gravar os seus discursos, as suas intervenções, os improvisos que ia proferindo, durante as inúmeras digressões que realizou por todos os continentes. Por isso, sei do seu pensamento, dos seus ideais, de como subitamente pode fazer jorrar palavras que parecem não ter qualquer propósito e, no entanto, se tivermos a capacidade de penetrar nos interstícios dessas palavras, que Oskar deixa suspensas entre reticências, pontos de interrogação e de exclamação, ele lá está, o desígnio de tudo, oculto entre duas linhas, ou discretamente grifado numa qualquer silabazinha, humilde e escorreita, que, ninguém como ele, sabe esboçar.

Um dia, na cidade do Cairo, enquanto observávamos, horrorizados, o corpo desfeito de uma bombista-suicida, à porta do hotel onde estávamos hospedados, e que, só por milagre, também não nos atirou para os braços de Hades, Oskar murmurou, ao jeito de um poeta, com um ar circunspecto, ajustado à ocasião, olhos postos no longe, e uma voz vagarosa e afectiva, que era a dele:

— Sabes, Norah, no coração das coisas há sempre a esperança de vermos brotar a flor da rosa, ainda que essa flor se pareça com o vento que passa veloz, deixando-nos apenas um rasto de perfume agreste. No entanto, se por alguma casualidade, a esperança se desvanecer, o perfume agreste do vento permanecerá na flor, por toda a eternidade. E neste pequeno detalhe é que está o grande mistério que faz mover o mundo…

Ainda hoje procuro o sentido desta reflexão enigmática, proferida diante dos despojos ensanguentados daquela que talvez tivesse sido uma bela mulher, embora animada por um espírito obscuro.

No entanto, não foi para encontrar o sentido dessas palavras que me propus a escrever este livro, até porque a escrita de um livro não se justifica. Escreve-se e ponto final. Contudo, poder-se-á perguntar: porquê a gesta de Oskar Kapriolo? A esta pergunta o próprio Oskar responderá, mais adiante.

Quanto a mim, direi que talvez seja pelo perfume agreste que permanece na flor da rosa, que Oskar encontra no coração das coisas, e eu sinto no ar que respiro, e que tanto me fascina, facto que, por si só, possivelmente, bastasse para justificar o livro.

Todavia, posso adiantar que o motivo não será propriamente este. Por agora, tentarei contar a história de Oskar, palavra a palavra, parágrafo a parágrafo, página a página, até ao desfecho do enredo que, inesperadamente, o envolveu como a teia da aranha envolve a mosca. Para tal, socorri-me do material que tinha à minha disposição: as gravações das conferências proferidas por Oskar e dos seus discursos improvisados, considerados impróprios, pelos seus opositores mais obstinados; conversas e confidências por ele autorizadas; páginas das suas Notas de Viagem e do seu Diário que, devo confessar, muito a custo, me foi consentido consultar; as minhas próprias vivências com o escritor e, evidentemente, os Andamentos de um percurso, ou talvez os delírios de Oskar, narrados pelo próprio, no jardim da sua amada Matilde.

Ou não seriam delírios?...

in «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller (a aguardar publicação)


Web site da imagem: internacionalizzando.blogspot.com



terça-feira, 20 de julho de 2010

«EM BUSCA DO AMANHECER QUANTA GENTE MORREU ENCOSTADA A UM MURO!…»

...
Entre essa pequena multidão, encontrava-se um menino mutilado, sem as suas duas pernas, sentado no chão seco e poeirento, à beira do rio, observando Oskar com uns olhos grandes, negros, profundos, e imensamente tristes.

Olhos de ver. De sentir. De indagar. Já sem brilho e sem vontade de implorar o que quer que fosse. Olhos, onde a tristeza, ela própria, se encontrava encurralada. Olhos que apenas observavam Oskar, fixamente.

Com ele encontrava-se um outro menino, só pele e osso, dono de uns olhos também enormes, negros e tristes, que igualmente fitavam, sem expressão, o jornalista. Mastigavam ambos umas folhas que, com um ar absorto, iam arrancando de um arbusto rasteiro, que revestia a margem do rio. Impressionado com estes olhares cravados no seu, como punhais, Oskar abriu caminho por entre a multidão e aproximou-se deles. Então, o menino mutilado sorriu, o sorriso dos inocentes, daqueles que nada têm a perder, porque nada mais têm do que o próprio destino, incerto mas deles. Oskar curvou-se e, segurando na mão daquele menino, perguntou-lhe:

– Diz-me, por que comes essas ervas cheias de pó?
E o menino respondeu:

– São ervas dormideiras. Como-as, porque fazem-me dormir. E eu gosto de dormir. Queria dormir… dormir… dormir… sempre… É bom dormir!

– Dormir será assim tão bom, que justifique comeres essas ervas sujas, poeirentas e, com certeza, de sabor amargo?...

– As ervas são azedas, sim, mas é bom dormir! Eu queria estar sempre a dormir, porque quando durmo, sonho. E nos meus sonhos, tenho as minhas duas pernas. Posso andar, posso correr, posso ir para todo o lado, procurar o que comer, subir às árvores, colher papaias, fugir das armas que me perseguem, esconder-me dos guerrilheiros. E até jogar à bola. Sou feliz, quando sonho. Sou inteiro nos meus sonhos. Quando estou acordado, tenho de me arrastar pelo chão, como um lagarto, e não é a mesma coisa... É?... Neste tempo do verbo ser – é? – interrogativo e monossilábico, pronunciado de um modo que condenava o mundo inteiro, o menino, visivelmente mutilado também na alma, deixou-nos perturbados, especialmente Oskar, que foi possuído por uma revolta imensa. E olhando-o bem no fundo daqueles olhos negros, onde a tristeza estava encurralada, disse-lhe:

— Ouve bem, meu rapaz, não posso devolver-te as tuas pernas. E tu não podes viver no teu sonho, a dormir, o resto dos teus dias. Haveremos, juntos, de encontrar uma solução para a tua vida – Oskar pensava numas próteses que, mais tarde, cumprindo a promessa, ofereceu ao menino – Entretanto, ouve bem: se alguém, algum dia, te chamar de burro, não te ofendas, que de burro nada tens, a não ser a dignidade, por isso, diz-lhes que vale mais a dignidade de um burro, do que a falta de carácter desses homens feitos bestas, que te arrancaram as pernas, e com elas a possibilidade de viveres fora dos teus sonhos…

Segurando, depois, na mão do menino-pele-e-osso, perguntou-lhe;

— E tu, por que comes tu estas ervas? Também por causa dos sonhos?

E o menino, mostrando já uma certa sonolência, respondeu:

— Não… Eu… não sonho muito… Mas enquanto durmo, não sinto fome… E nas poucas vezes em que sonho, tenho sempre também o que comer…

— Há sempre o que comer nos sonhos… Os sonhos. Sempre os sonhos…O último refúgio dos que perderam a esperança… – balbuciou Oskar, mais para ele próprio, do que para ser ouvido.

...

Excerto do Capítulo 4 do livro «A HORA DO LOBO» © Josefina Maller (a aguardar publicação)

Primeiro conto da Trilogia das Horas

(Deambulações de um homem lúcido por um mundo mais desordem do que ordem, ou o delírio de um nefelibata e os seus discursos impróprios, seguidos de caos)



terça-feira, 4 de maio de 2010

A MORTE DO LOBO...



O Lobo, lindo, de pelagem cinzenta e olhar profundo, solitário e triste, cabeça baixa, caminha, cambaleando, pisando a folhagem, na minha direcção.


Os seus olhos tristes, feridos de morte, olham-me, com desespero.

Eu sei, ele sabe, a morte está perto.

De súbito, solta um longo e doloroso uivo, que soou em toda a floresta como uma despedida.

O Lobo estremeceu... Eu estremeci...

Conduzi-o até uma gruta, escondida entre abetos, e ali, no abrigo da folhagem, exalou o último suspiro, nos meus braços, que o abraçaram fortemente...

– Vai, Lobo, vai...

Leva contigo o meu coração despedaçado e as minhas lágrimas...

A tua vida foi uma constante luta pela sobrevivência, no mundo onde manda o homem. Que mal fizeste tu para que ele te assassinasse?

Mal nenhum, eu sei.

Tu partiste, Lobo. Para onde?...

Como posso saber?...

Só sei que nesta floresta, na nossa floresta, permanecerá a tua honestidade de Lobo e a nossa amizade, em cada madrugada que vier...

Para sempre, Lobo...

Para sempre...

 
(Origem da imagem: Internet)